Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Torcida ou torcicolo?

Respeito quem está torcendo na Copa do Mundo da Fifa, seja pra quem for. Vivemos num mundo de contradições, somos contradições metamorfoseantes. Consumo seriados americanos aos montes e estou pra lá de saturada dos diálogos que vinculam brasileiras à sexo e demonstrações historicamente ignorantes do que foi a revolução russa de 1917, mas assisto, me divirto, me emociono.

Acredito que deva ser um sentimento parecido para quem é de esquerda, aliás, para quem tem um mínimo de empatia com outro ser humano, e é amante do futebol viver esse mundial de 2014. Afinal, foram dezenas de pessoas em situação deImagem rua sumidas temporariamente durante a Copa das Confederações. Bala de borracha e spray de pimenta na cara de quem estava violentamente segurando um cartaz, cantando o hino nacional, ou tocando seu tamborzinho. São meus camaradas de luta que estão respondendo inquéritos policiais, ou mesmo processos judiciais porque protestaram. Foram milhares de pessoas removidas das casas em que nasceram, cresceram e criaram seus filhos. É o turismo sexual que objetifica nossas mulheres e crianças.

São coisas que não consigo transpor, abrir uma gelada e torcer pra que quer que time seja, mas, mais uma vez, respeito quem o faz. Pessoas diferentes, capacidades diferentes. Mas precisamos nos entender.

O que me faz menos brasileira do que você? Sem entrar em discussões aprofundadas de pátria e ufanismo, sinceramente, me reconheço e tenho muito mais em comum com uma integrante do Exército Zapatista em Chiapas do que com o filho do Eike Batista. Nós duas temos que trabalhar para sobreviver, ela absolutamente mais que eu, somos mulheres e somos censuradas por isso todos os dias (queria acreditar que eu bem mais que ela, mas tenho minhas dúvidas). Não nascemos no mesmo país, mas temos bem mais em comum do que eu tenho com a Xuxa e ela com a Thalia (aquela da Maria do Bairro, genty). Por isso nacionalismo é tão descolado de lógica, a não ser para as guerras que movimentam a indústria bélica, claro.

Mas tenho sentimentos por aquelxs que circundam minha realidade imediata, é claro. Não conheço o Norte, mas aquilo que conheço me encantou profundamente, a cultura, a natureza, as pessoas, mesmo quando no Sul me olhavam com jeitinho torto ao ouvir meu sotaque nordestino, até quando proferiram diretamente a mim e a outras pessoas “Nordeste de cu é rola”, eu continuei intensamente admirada pelas coisas e pessoas que vi, ouvi e cheirei. E é por isso mesmo que, para mim, as violações dessa Copa se sobrepõe a qualquer coisa, porque eu gosto desse país em que vivo, gosto não, amo, sinto orgulho pelo que bebo aqui. Por mais admiração que eu tenha, ninguém que cantou em Woodstcok vai me comover mais Imagemque a voz da Bethânia e um arranjo do Baden. Nenhuma Mona Lisa me deixará mais em explosão do que contemplar os orixás do Carybé no Museu Afro em Salvador. Wolf, te admiro profundamente, mas é Clarice quem chega ao meu coração, ao meu fígado e intestino grosso.

Esse país me arrebata e me dilacera de um jeito que as palavras não dão conta e eu não preciso de nenhuma aprovação estrangeira pra sentir isso. Não preciso do padrão FIFA, não preciso da admiração dos alemães, não preciso ser o país que sediou a Copa das Copas porque esse país já sediou Chico Mendes, sediou Marighella, Dandara, Ana Montenegro, Laerte, João Cabral de Melo Neto, a Cassinha moradora da Trilha do Senhor, a Gabi Zaupa, o Carlos Mourão, a minha mãe, o meu avô, em algum plano. Isso basta para amar esse país, para construir ele politicamente, me serve a luta. Esperar admiração estrangeira? Não é nacionalismo, é antes um sentimento subserviente de herança colonial da ordem da invasão cultural, que, como diz Paulo Freire, faz o invadido ver-se aos olhos do invasor. Tá bom já, né?

A Copa da Fifa não é sobre esporte. A Copa da Fifa é antes criação e expansão de mercado consumidor, é antes política internacional entre os burgueses dos mais variados países.

Torce. Mas lembra, isso não te faz mais, nem menos brasileirx. Não te faz mais, ou menos coerente. Isso te faz um torcedor. Mas as justificativas que alguns dão para torcer, atingem feito bala de borracha, meu velho, de que lado você quer atirar?

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This entry was posted on 06/17/2014 by in Um porre and tagged , , .

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