Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Minha carne é de carnaval, meu coração é um GPS

Dizem que o ano só começa depois do carnaval. Sabemos que isso é tão verdade quanto o gigante ter acordado, Mas, como tudo pode começar a qualquer momento, vou aproveitar pra (re)começar as postagens no Merece uma dose! com o mote do meu carnaval pernambucano. Até porque se tem uma coisa que merece uma dose é o carnaval Recife/Olinda e com certeza vai contemplar as duas contribuidoras desse blog, pernambucanas que só elas (e até mesmo a Maíse, que tá no Canadá).

Primeiro preciso dizer que nem sempre fui afeita a carnavais, que não me significavam mais que aquele espaço de dias que eu não precisava ir à escola e minha mãe floria o meu pescoço com plástico e canudos. Aí tinha o mela mela na rua, as pessoas falando comigo sem motivo algum  e uma música ensurdecedora bem diferente do Raul Seixas e Edith Piaf que tocava na radiola do meu pai. Ah, e claro, aquelas mulheres vestidas de pavão dançando em carros gigantes e atrapalhando minha programação habitual da TV.

Só com o tempo foi descobrindo as outras nuances do carnaval, dos outros estados, de outros tempos, de gente que ainda se indaga por que raios a jardineira está tão triste. E já na juventude vieram os sambas, ah, Madureira, como faz sentido agora e a loa do Maracatu cearense escorre pelas minhas veias dando o compasso do meu pulso.

1981790_594664337278545_1712901284_nE tem o carnaval de Pernambuco que é um milhão de coisas, dentre algumas que eu não conheço e dentre outras que repudio, como você, turistão, que vai pra Olinda pegar mulher à força e você sem noção que só vai pra folia atrás de socar alguém e ainda você que fez carinha de nojo pro casal homoerótico do seu lado.

Mas nesse post vou falar é da minha experiência desse ano, minha segunda vez em Recifolinda e que fez meu ano começar de fato, naquele sentido místico de amarrar os pesos num balão colorido e acenar pra eles da janela.

O carnaval começa com aflição da programação que se espalha em lugares diferentes e em horários parecidos, a tensão das escolhas.  Mas essa nossa conversa aqui é justamente sobre aquilo que não se programa e simplesmente acontece porque as pessoas inventam de vibrar na mesma intenção.

A começar por essa gente maluca que gasta todo o salário nos pré carnavais e esquece que o carnaval é no fim do mês – significa – pindaíba total. E quando vê que gastou o último centavo em cerveja no primeiro dia topa andar qualquer distância (e ladeira!) pra pegar a bebida desconhecida que a amiga trouxe de Porto Alegre. No caminho parar em frente ao vendedor de CDs de axé dos anos 90 pra dançar com ele e pedir pra tocar Banda Reflexus, por que, né? Daí a cara de pau é tão grande que você pede pra amiga dele pagar uma cerveja pra você e que na volta se retribui com um gole da bebida estranha (que é deliciosa), mas como não bastasse o outro amigo te leva pra conhecer o ateliê dele, que produz a ornamentação do Bloco do Homem da Meia Noite e ainda dá pro seu amigo uma peruca de presente. Se divide um sorriso com quem já nasceu dentro do carnaval, no útero daquilo que não sai do meu mp4.

1795223_10202631184634530_2016857057_oMas é só o primeiro dia e eu ainda ia chorar de noite com Gilberto Gil cantando que a novidade era o máximo do paradoxo estendido na areia e depois sorrir com ele mandando descer os filhos de Gandhi, um cantor com meio século de carreira só pode mesmo é banhar todas as fases da nossa vida.

No dia seguinte, claro, acordar com o vendedor de gelo debaixo da sua janela e no bloco “Enquanto isso, na sala da justiça”, apreciar que a humanidade é capaz de fazer com que um cara vestido com a máscara do Pânico desça de rapel num prédio a fim de roubar a taça da Copa do Mundo, mas claro que o Homem Aranha salva o dia e a criançada vibra.1959644_601052713321941_213534776_n

Otto, como sempre, tira um pedaço de mim e realoca sementes e serpentes, mas dessa vez eu danço Janaína como quem volta ao Rio Vermelho e dança novamente afoxé com marchinha de carnaval ao mesmo tempo, das coisas que só a Bahia tem. Nação Zumbi no Marco Zero: 1000 coisas pra fazer antes de morrer, check. O mangue treme por debaixo do asfalto. E ainda vem o danado do João Paes de Lira que meu deixou órfã de Cordel do Fogo Encantado (até hoje o melhor show da minha vida) cantar justamente a primeira música que ouvi de Cordel.

As passagens dos dias durante o carnaval pernambucano é silenciosa, a contagem do tempo só é válida para não perder os shows, daí que ver o sol nascer no Marco Zero te dá um choque de fim, de começo, de ciclo. Do que já foi e do que ainda vem. Olhar pro lado e ver uma das pessoas mais importantes na minha vida e lamentar que não dividimos geografia, mas celebrar que pudemos 1980687_545414302224616_1400059056_ndividir  o sol saindo das pernas do mar pra por os blocos na rua. É, história a gente comunga.

Alceu Valença brigou comigo ano passado por não fantasiar-me, levei a sério. Fui colombina, Frida, pirata, malandra, me deixa gozar, me deixa gozar, e quando a criatividade e o tempo faltaram fui só colorida mesmo. O importante é a brincadeira, uma flor, um olho brilhoso, purpurina no cangote, um sorriso, um olhar trocado, abraço com suor. Porque se encontra gente bonita demais, se esbarra no bloco do MST, o homenageado é ninguém menos que Chavez e a folia é bolivariana.

E o post vai ficando imenso e ainda há tanto pra falar, principalmente da cerimônia dos Tambores Silenciosos. Seguindo o som dos tambores e os direcionamentos de transeuntes, conseguimos encontrar a longa fileira de grupos ainda do início do século XX, sem querer, apenas seguindo o tal do GPS vermelho paramos em frente ao Estrela Brilhante. E vem maracatu, vai orixá, vai chegando a 00h, as luzes se apagam e é só orações, tambores, mãos dadas, há algo de maior, de passado, de benção, de conexão, de espera, de silêncio e devoção.1921172_605734796163611_2127778369_o

Mas Nação Zumbi de supetão no Alto Zé do Pinho é ainda outra história, é quase uma reunião de amigos no quintal de casa. Embala a gente falando besteira, matutando o mundo, dividindo breja, se cheirando e fazendo ciranda ao som de Mundo Livre S/A.

Preciso falar da festa feita na cozinha ao som das nossas gargantas rasgando os mais saudosos axés baianos, que a pernambucana largou a colher de mexer a sopa pra vir mexer os quadris com a gente e que seu namorado largou a função de segurança pra vir segurar o ritmo da gente batucando na estante de metal. E ainda do ritmo maranhense ensinado para aquele povo todo que vinha cada um de um canto diferente e que pronuncia as mesmas palavras de jeito completamente peculiar. Isso pra mim é podia ser a 10008577_601074193319793_1709355937_ndefinição pra qualquer bom carnaval.

E isso me lembra a roda formada no Recbeat com os gringos protagonizando o ritmo e me transportando pra cena de filme americano com a famosa disputa de dança. Recbeat que me apresenta bandas novas e me surpreende com uma pérola relembrada por uma banda. Ano passado, Jeneci cantando festa de Luiz Gonzaga. Esse ano, bandinha que nem lembro nome canta Validuaté.

Chega a quarta-feira ingrata, demonstrando ser o melhor dia de Olinda. De dia, todos acabados, muitos até no hospital. De noite, encontro dos bois. Sem procurar, o Boirrasta nos encontra, nos oferta urucum, me beija a mão, me pinto pra absorver as últimas gotas do carnaval. E eles cantam pra Chico Science e até pra Oxum. E encontramos Boicote, com seu boi do passe livre e fora FIFA.

Sem querer, mais uma vez, paramos em frente à casa da senhora que oferta vinho e frutas e é Marcelo Jeneci quem a abraça. 1779114_598025176958028_801926712_nQuando decidimos ir pra casa, Karina Buhr, Renata Rosa e Siba vão abrindo o caminho pelas ruas vazias. Fora dos palcos, eles fazem o carnaval. Eu com a cara vermelha de urucum, pé inchado e enfaixado, coração na mão, tenho que me despedir.

Nem todos entenderão essa piada, mas esse carnaval definitivamente não veio em vão, mas veio são, solto, sagrado, dengoso, malemolente que só ele. Sai dele, ele não saiu de mim. Quem sabe amanhã, quem sabe com o próximo prazo estourado, o próximo engarrafamento, a próxima prova e aí eu conto com a memória e a espera dos próximos, coração vai guiar.

 

Leonísia F.

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This entry was posted on 03/10/2014 by in Tira-gosto, Um porre and tagged , , .

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