Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Dor de cidade.

Hoje me bateu uma tristeza enorme. Tanta que nem consegui fazer nada. Me faltou ânimo, força. Me sobraram silêncios.

E essa tristeza é pela cidade. Nossa Fortaleza vem sendo tão maltratada que hoje as forças me escapam. Cada vez mais somos feitos de asfalto, tédio e isolamento.

Nossa cidade tem ficado mesmo sem afeto algum.

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Os meus locais de afeto estão sendo destruídos. E é muito doloroso ver essa Fortaleza se perdendo, sendo aterrada, asfaltada, cortada e removida.

Me dói também saber que eu faço parte das estatísticas dos que usam carro e precisam do asfalto, mesmo que tenha buscado um que poluísse menos.

Hoje estou desesperançoso e me permito ficar tristinho, mesmo sabendo que só a luta mesmo muda a vida.

Não consigo entender um Acquário, os tapumes lá no Poço da Draga, os espigões, os viadutos, o que aconteceu no Cocó e o que ainda está anunciado para acontecer lá, aquela violência no Alto da Paz, os despejos para as obras da Copa, o que vão fazer com as árvores da Aldeota e com a Praça Portugal.

Hoje, e talvez só hoje, eu não consigo mesmo entender. É que a cidade está doendo em mim. E sofro de angústias pelas árvores que mais tarde serão cortadas.

É, talvez eu já esteja cortado há um tempo e ainda não pude me curar. A cidade, que antes me curava, agora me adoece.

Uma das coisas que mais gostava de fazer era ir desatar os nós do cotidiano olhando para o mar. E o mar era aquele lá da ponte velha, que ainda não caiu.

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Teve um período em que a gente ocupava sempre aquele espaço, em especial com o Bando 17 de Maio. Fazíamos luais, festinhas, saraus e picnics bem ali, na teimosa ponte velha.

Agora ocupar esses espaços tem sido um exercício de resistência e não mais de prazer e afeto. E isso dói.

Eu mesmo não consigo mais ir para lá. Aquele mar que antes me apaziguava, agora me pede ajuda. Ele me consome e não tenho mais para onde desaguar minhas angústias. Aí ficamos nós dois, o mar e eu, sofrendo juntos.

Era simples. Bastava eu ir lá. Olhar o Mara Hope, cantarolar Caymmi, beber um vinho e ver o sol se pôr. Bastava só isso mesmo: levar meu silêncio para passear.

Nem sequer há mais silêncio, só um sufocar. A terra, coitada, também nem respira mais com tanto asfalto em cima dela.

Tempos difíceis. Às vezes, e só vezenquando, cansa disputar o espaço urbano e, acima de tudo, sustentar nossas memórias e afetos.

Mas é só isso mesmo: um cansaço e uma dor. Amanhã passa.

Carlos Mourão.

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6 comments on “Dor de cidade.

  1. Ana Diogenes
    03/11/2014

    Parabéns pelo texto você conseguiu transportar para sus a dor, a dor de quem ama está cidade

  2. Jayane
    03/11/2014

    É bem isso. Chegar no Poço e não ver o mar… não dá. Só fui uma vez depois disso. Entendo agora o que a prof. Raquel sentia quando não queria ir ver as comunidades do tabuleiro de russas que acabaram sucumbindo… É muito da gente que fica nesses cantos. Eu me permito ficar tristinha, ó. Permito-me até chorar. Amanhã não passa.

  3. JMarquues
    03/11/2014

    Apoio o aquário, apoio o viaduto no Cocó e appooo a mudança da Praça Portugal. E se tivesse um projeto para construir um Zoológico descente também apoiaria, afinal, hj em dia está cada vez mais difícil encontrar algo para fazer e levar nossos filhos em Fortaleza que não seja praia e shopping center!

  4. Gaspar Noè
    03/12/2014

    Não chores Carlos Mourão, vossa sensivel alma de poeta não deveria olhar com tamanha amargura a inexorável força do tempo que tudo modifica. Suas lembranças sempre viverão dentro de ti. Permita que essa cidade cresça, permita que outras memórias surjam. Não crie a ilusão da permanencia, pois tudo nesse mundo é pó. O que me aflige demais é essa melancolia mofada de pessoas que lutam tão egoisticamente para que as coisas não mudem. Fortaleza está se afogando em descuidados e velharias. Sou a favor (dentro da legalidade, razoabilidade financeira e necessidade) de reformas e intervenções urbanas. equipamentos que tragam evidência e modernidade. Vamos permitir que outras geraçoes criem memorias de lugares verdadeiramente públicos, seguros e aprazíveis. Lugares que servirão a muitos mais do que um grupo de jovens corajosos, sem medo de ficar em regiões ermas sobre marquises inseguras cantarolando Caymmi. Por favor não sou contrário a preservação e memória, mas temos muitos inimigos do progresso querendo uma cidade congelada no tempo e esquecem que o tempo apaga tudo!

  5. Merece uma dose!
    03/12/2014

    “Tudo nesse mundo é pó, que venha a modernidade!” (Amigo do Progresso).

  6. Gaspar Noè
    03/19/2014

    É sim meu caro, mas não me refiro a esse pó que frequenta os mais conhecidos narizes de nossa política e muitas vezes comprado com mesadas que “revolucionários suquinho de pera” recebem de pais burgueses. Me refiro ao pó mais elementar, aquele que compõe toda a matéria.

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This entry was posted on 03/10/2014 by in Amnésia alcoólica.

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