Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Enegre(s)er

Em outro post Maíse Soáres já falou de sua negritude e de como essa é encarada por uma sociedade hipocritamente racista e preconceituosa. Maíse fala de coisas que eu nunca vou poder compreender porque entre as três principais raças que formaram o povo brasileiro a que mais respingou no meu fenótipo foi a pálida e decadente europeia. A minha pele e meu desprovimento de ancas me fantasiam da raça normal e racismo, dentro do Nordeste, é algo por qual eu não passo.   Mas mesmo do meu fenótipo já brota uma cabeleira vasta e crespa que se oriunda das raízes que guardo no meu íntimo.

movimento_negro78_2Não posso falar de como me projeto negramente no mundo e de como ele me encara, só posso falar desse sentimento de pertença que tenho ao ritmo dos tambores africanos, aos cantos de dor e aos orikis de fé. Da sensação de liberdade que dar um martelo rodado numa roda de capoeira provoca, do arrepio na espinha que um jogo de búzios causa e da conexão com o todo que um ebó te permite.

Há mais distância entre África e Brasil do que um Oceano Atlântico. Os relatos do passado foram escritos por mãos brancas, masculinas e ocidentais. O tensionamento das ciências é coisa recente e permanece como disputa. Mas a materialidade desse passado foi construída por braços negros encarcerados, força de trabalho usurpada mediante sangue. Braços nas plantações, nas construções, nas cozinhas, nos berços, no sexo do senhor da Casa Grande. Quanto de passado passou? E o que de África sabemos? O Brasil africano começa no navio negreiro e aporta em feijoada, samba, capoeira, candomblé, dengo, cafuné, maracatu, quitute…

Nas minhas veias devem navegar essas dezenas de navios negreiros que fecundaram nossa cultura. Uma yalorixá de Oxum que disse que eu daria um belo barco. Foi no candomblé que o meu ceticismo se curvou a uma espiritualidade incipiente. Através dos 11_iemanjaarquétipos compreendi como convivem minha fúria de Ogum e meu colo de Iemanjá. Nele me fortaleço, nela me aconchego. Banhar numa cachoeira me parece um abraço de Oxum e os raios de uma tempestade me parecem Iansã convocando pra luta. Os orixás me conectam com a natureza e me relembram que sou bicho, que sou parte.

Joguei capoeira na adolescência, mas gostava mesmo era dos cantos, dos tambores, do berimbau. Acordam seres dentro de mim que são anestesiados pela rotina, pelo fatídico e plastificado dia a dia. Transcendência é a palavra.

A despeito da minha inabilidade musical, tenho me permitido descobrir como fazer os instrumentos cantarem, isso é união, é descobrir que “o coração tem um ritmo, o caminhar tem outro”. Cada gargalhada tem um próprio, o choro e a respiração.  O corpo é um templo musical e é povoado pelos nossos antepassados: os negros, os índios e também os brancos. Dentre outras raças que mais tarde nos somaram.

Identificar-se com uma raça perpassa por uma escolha política, mas também por um saber reconhecer como o corpo reage às expressões culturais. O que te toca? O que faz sua pele arrepiar? Teu coração acelerar? Teus olhos brilharem e marejarem? A boca desenhar sorrisos?

“Negro entoou um canto de revolta pelos ares no quilombo do Palmares onde se refugiou” e esse canto ainda ecoa nas periferias, nas cozinhas, nos carnavais de rua, nos movimentos sociais, no silêncio do nosso íntimo. Identidade tem herança racial. E findo o infindável com as palavras de um moçambicano branco de pele, mas de uma escrita negra.

Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto

Leonísia F.

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This entry was posted on 02/27/2013 by in Happy Hour.

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