Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Sou vadia. Pergunte-me como.

Como ontem foi o dia nacional da Marcha das Vadias, resolvi fazer esse post acerca do termo “vadia”, termo que tive muita dificuldade em aceitar e que, agora, vejo que não poderia ser outro e explico.

Sou uma vadia. Tenho 22 anos, nordestina, filha única, estudante e vadia. Por quê? Porque sou mulher. O fato de eu não ser mais virgem e escolher com quem eu quero transar ajuda. Mas não é por isso que eu sou vadia. Sou vadia porque sou mulher.

Vadia é um termo que não encontra sinônimo no gênero masculino. Logo, para se caracterizar uma vadia, tem-se de atingir o requisito de ser mulher. Requisito único, acabo de perceber e explico: enquanto estou aqui no meu quarto a curiar o mundo pela tela do computador, meus pais se entretêm nessas implicações que casais tem entre si. E, em meio a risadas, meu pai solta: “ah, rapariga mentirosa”. Minha mãe não se ofendeu, a entonação e o contexto permitem a frase, mas deixem eu lhes contar uma história sobre minha mãe.

Minha mãe, a quem eu amo acima de tudo e todos, casou-se, virgem, com meu pai quando tinha 28 anos. Isso mesmo. Minha mãe perdeu a virgindade com vinte e oito anos e transou com um único homem na sua vida: seu marido, meu pai. Mesmo tendo começado a namorar com 15 anos e possuindo um corpinho de top model e belíssimos olhos verdes, mamãe fez questão de manter sua dignidade, palavras dela. E se frustrou muito comigo quando soube que eu não fiz o mesmo.

Pois bem, ainda assim, essa mulher de reputação ilibada recebeu o adjetivo de rapariga do seu companheiro de mais de vinte anos. Ainda que em tom de brincadeira, é uma situação que apresenta bem o requisito para ser uma rapariga, uma vadia: ser mulher e estar em um mínimo de desacordo com um homem. (ou mesmo outra mulher).

Ok, me lembro agora que minha mãe já recebeu esse adjetivo em outra oportunidade. Numa reunião de condomínio em que, ela sendo do conselho, chamou a atenção de inúmeras infrações cometidas por um morador, o qual despejou esse adjetivo tão temido por nós mulheres.

Mas afinal, por que tememos tanto esse adjetivo? Se não nos sentimos

Nathalia Castro, mulher, vadia, linda, maranhense e militante.

merecedoras desse adjetivo, quem o merece afinal? Profissionais do sexo? Mulheres que perderam a conta dos caras com quem transaram por prazer durante o ano, durante os últimos seis meses? Quem afinal são essas vadias?

Pois bem, vadia sou eu. Eu que mesmo sabendo das escolhas de minha mãe testemunhei ela receber adjetivo tão próximo. Eu, que até pouquíssimo tempo atrás, achava que se uma mulher ia pra noite com um decotão e uma saia curtíssima não podia esperar muito respeito dos homens. Eu, que sabendo que o machismo mata todos os dias, sei também que até bem pouco tempo, o Código Penal só reconhecia o estupro se cometido contra mulheres honestas. Eu, que não tenho a menor ilusão de que mais da metade da população ainda culpabiliza a vítima de estupro ao invés do agressor. Vide o caso do último Big Brother Brasil. Eu, sabendo de tudo isso e estando imersa nisso, não posso aceitar haver uma separação entre mulheres como minha mãe e mulheres vadias. Mulheres que merecem respeito e mulheres que deveriam se dar ao respeito. E até porque, companheira, não tem muito para onde correr não. Você será uma vadia para algum cara ou alguma mulher em um determinado momento de sua vida. Por quê? Já disse, porque você é mulher. Ou seja, a separação não existe. Estabelecer uma divisão ilusória que existe mulheres vadias e mulheres não vadias é sectarizar esse gênero que sofre das mesmas violências, das mesmas dificuldades e das mesmas correntes, com as devidas variações de intensidade dadas por raça e classe. Ou somos todas vadias, ou não nos reconhecemos na luta.

p.s. Esse post não tem a ambição de discutir as divergências com a marcha em si, mas apenas o termo.

Leonísia F.

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7 comments on “Sou vadia. Pergunte-me como.

  1. Paulo Vasco
    05/28/2012

    Muito interessante o espírito democrata evidente no artigo. Em Portugal, a palavra usa-se também no masculino mas refere-se aos que nunca estão em casa, não respeitando os demais.
    Abraço.

    • leonisiaF
      05/31/2012

      Pois é, aqui no Brasil, vadio é mais asssociado a malandro. Não tem a mesma conotação que pra mulher, que seria exercer a sexualidade de forma livre.

  2. Dexaketo
    05/28/2012

    Reblogged this on DEXAKETO.

  3. vdmelly
    05/28/2012

    LINNNNDOOOOOOO. AMEEEEIIIII ❤ *****

  4. Kessia
    05/29/2012

    Meu namorado, não sabendo que eu conhecia a militante que escreveu palavras tão lindas sobre a luta das mulheres, vadias, me mandou o texto. Ele que não é militante, reconheceu o brilho das tuas palavras, e eu, leitora assídua ( e agora confessa) venho dizer que não podiam ter escrito melhor. Parabéns pelo teeeexto leeeeeeo. Há-braços militantes na luta de todos os dias!

    Com amor, kessinha

    • leonisiaF
      05/31/2012

      Eita que feliz com esse comentário! Volta sempre aqui, lindona, que cê é mais que bem vinda. E uma sortudona por ter um namorado feminista! rs beijos e beijos!

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This entry was posted on 05/27/2012 by in Conversas ao pé do balcão, Ressaca moral.

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