Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Eu, minha cor e meu amor.

Depois do último texto, sobre África a Carolina Rodrigues me sugeriu que falasse um pouco mais das minhas impressões e relações com os africanos e brasileiros e de como eu me encaixo “perfeitamente” nessa salada de nações. Será? Para os desavisados eu, Maíse Soares, resolvi largar tudo na capital cearense para me arriscar num curso superior na cidade de Redenção, no interior do Ceará, a qual, segundo registros históricos, em 1º de janeiro de 1883 aboliu a escravidão. Em reconhecimento a este feito, recebeu o privilégio de sediar a UNILAB .

A UNILAB é uma universidade voltada para promoção da integração entre países africanos e asiáticos, com língua oficial portuguesa, e o Brasil. A ideia é promover a integração cultural e a formação em áreas de interesse mútuo. Lindo, né?! O que nós sempre ouvimos do corpo docente é que um dos principais objetivos e um dos maiores diferenciais da nossa universidade é a integração. Integração entre países e, sobretudo, entre as experiências e vivências dos alunos. O que os idealizadores não supunham é que esse ideário integrador esbararia nos preconceitos que trazemos em nós.

Nesse processo de não integração, os brasileiros são os que mais decepcionam. Digo “eles”, pois num processo de identificação estética os brasileiros são, sim, os outros, principalmente os cearenses. Muito comum dizerem que no Ceará não existem negros nativos, nenhum negro nasce no Ceará. E justifico: há 14 anos eu e minha família moramos aqui e sempre que conhecemos alguém nos perguntam de onde somos, pois a cor da nossa pele denuncia que não somos daqui. Será?

Pois bem, quando cheguei à UNILAB todos achavam que se tratava de uma africana, até mesmo os africanos. No decorrer de seis meses tive que explicar para muitas pessoas, principalmente para os brasileiros, como uma negra, não africana e não cearense, chegou aqui e o que veio fazer. As dúvidas mais comuns foram:

1- Você participou de uma seleção no sistema de cotas raciais?

2- Seu cabelo (ruim) é protesto a indústria cosmética?

3- Você namora um africano, pois acredita na propagação da “espécie”? (Sim, a pergunta foi exatamente essa!)

A universidade não tem sistema de cotas raciais, o que é uma pena, por isso estudo aqui, porque fiquei horas a fio com a bunda pregada na cadeira de uma escola fazendo o ENEM. Minha nota foi boa, ora.

Sobre minha cabeleira: quando resolvi “assumir” os cabelos minha decisão se baseou no fato de não querer subir no finado Paranjana 1 e me sentir igual a todas as mulheres do recinto: alisada e chapada. E mais ainda por tomar consciência que aos 18 anos eu não tinha noção de como era o meu cabelo, daí eu os assumi!

E, por último, a minha escolha afetivo-sexual não tem nenhuma relação com a propagação da “espécie” negra. Poucos sabem que foram os olhos castanhos e a timidez do meu amado que me encantaram e continuam encantando, todos os dias (suspiros de amor…).

E olha, essa discussão toda sobre ser negro no Brasil e sua interação com africanos não é o meu assunto preferido. Queria mesmo que isso já tivesse sido superado e falar de música, de boa comida e de lugares bacanas, mas esclarecer estes mal entendidos tem feito parte do meu cotidiano de negra mais do que eu gostaria.

Maíse Soares.

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3 comments on “Eu, minha cor e meu amor.

  1. Carolina Rodrigues
    05/22/2012

    Adorei o texto. O título é fofo!

  2. indiomala
    05/28/2012


    Intelectuais, desamparem suas doses de parole e vejam esse vídeo.

  3. Pingback: Enegre(s)er | Merece uma dose!

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This entry was posted on 05/18/2012 by in Um porre.

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