Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Até que nem tanto esotérico assim…

Só quando comecei a morar só foi que percebi que trazia comigo uma carga de misticismo muito forte, mas pensava que nem tanto esotérico assim. Logo quando fui abrindo minhas caixas na mudança, em 2010, foi que olhei meu quarto (pela primeira vez tinha um quarto só meu) e percebi que tinham algumas imagens de seres místicos/divinos decorando o ambiente.

Parei por alguns segundos e me perguntei quando foi que aquilo começou, quando que tinha começado a falar do meu ser esotérico pelos objetos e símbolos antes mesmo de trazer à minha consciência.

Também misticamente percebi que já estava formado uma espécie de altar bem ali no meu quarto, onde meu corpo repousava. E o mais curioso foi que esses objetos que o decoravam inicialmente, todos, sem exceção, eram presentes. Presentes para um ateu!

Luziê nasceu do tempo/ Mãe do vento lhe deu asa/ Ê, volta do mundo/ Onde chega está em casa.

A partir daquilo, desatei os nós do preconceito e comecei a fazer pequenos rituais, mas ainda bem acanhado, pois sempre tinha alguém na casa e isso não me deixava à vontade de andar por ela com incenso, limpando as energias, ou mesmo acender meus pontos, como me ensinou a Maria Padilha.

Lentamente e com muita delicadeza fui montando mesmo um tipo de altar com toda a riqueza cultural e religiosa do Brasil e de um pedacinho do mundo, todos convivendo harmonicamente. (Talvez os objetos do meu quarto guardem esse desejo de harmonia entre as crenças).

Comecei colocando algumas pedras semipreciosas, uma pedra que havia ganhado de um babalaô no meu último jogo de búzios, meus patuás de Oxalá e Iansã que a Bruna Gurgel (Alma Perfumada) trouxe da Bahia (já adivinhando que eu era filho de Oyá), um copo com água e sal grosso. Às vezes, colocava um galho de arruda e deixava um incenso acesso.

No criado-mudo tinha uma caixa que comprei no centro histórico de São Luís e dentro dele tinham várias fitas do Nosso Senhor do Bonfim, trazidas também da Bahia, e alguns terços que me mandaram do interior. Na cabeceira da cama tinham dois Budas (um laranja e um azul). Indo para sua ponta, tinha um elefante indiano e um Omolú, que ganhei da Elaine Maria. Ah, tinha também um São Jorge vermelho que ganhei da minha mãe e uma Iemanjá, presente da Carolina Rodrigues.

Disso tudo sabe o que eu tinha comprado? A caixinha de São Luís. As demais coisas vieram se encostando na minha casa, entrando no meu quarto e sentando na minha cama, na cabeceira, para cuidar dos meus pensamentos.

Quem entra hoje no meu quarto vai ver tudo isso e mais um bocado de coisa. Só numa parede estão todos os orixás organizados por sua ordem de carrego e ao lado da minha escrivaninha verão um Preto Velho, Santa Bárbara, os patuás, várias fitas do Senhor do Bonfim, velas, incensos, incensários, guias, um japamala, presente da moça d’água, a Maria Gabriela, e um Buda.

Fui aprendendo a conviver com eles sem serem uma contradição para mim. Se as coisas ficam confusas eu jogo Tarot e pá: tudo resolvido! Confesso que é uma delícia ver tudo isso misturado num espaço tão pequeno.

O misticismo me ensinou exatamente esse exercício fundamental ao ser humano: a boa tolerância. Quanto mais lia sobre astrologia, candomblé, espiritismo, budismo e praticava yoga, via que todos eles se comunicavam perfeitamente, só eram vestes diferentes do mesmo elemento.

Talvez essa confusão toda me agrade porque meu meio do céu é em Gêmeos (e isso pode ser bom) e meu Netuno é em Peixes, ou seja, o planeta das religiões é regido pelo signo mais místico. Confusão armada: capacidade de ver diferentes pontos de vista e exageradamente simbólico. Ah, mas quem não é?

Ser místico é romper com as fronteiras da ciência, não se deixando compreender como coisa absurda, ou aceitar o rótulo de sobrenatural que as religiões o deram. Ser místico é ser lúdico, lúcido, já que se está mais atento ao tempo, e transcender ao asfalto e ao ferro  pela respiração.

Por isso é sempre delicioso misturar os elementos religiosos, místicos e simbólicos como bálsamos que aquietam a alma chorosa do mundo. Só não recomendo fundamentalismos e ser ateu com a religião alheia, experiência desse canceriano filho de Oxaguiã com Iansã e protegido pelo anjo Gabriel.

Carlos Mourão.

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7 comments on “Até que nem tanto esotérico assim…

  1. Merece uma dose!
    04/27/2012

    Que texto bem escrito!

    Eu compartilho desse altar e todos são presentes: uma pedra do meu signo, que tenho há exato dez anos; uma lembrancinha de Oxalá, que ganhei numa festa dele; uns duendes haha; o patuá de Iemanjá e um santo antônio que ganhei por ser madrinha de casamento; incensos que ganhei de ti e de uma outra flor, meu mesmo só os búzios que junto desde a adolescência, antes de eu saber que era do mar e que retribuiria os presentes com rosas brancas. Sentindo falta de um Ogum aqui…

  2. Merece uma dose!
    04/27/2012

    Esqueci de assinar: Leonísia F., que deveria tá escrevendo seu artigo. 😦

  3. Anónimo
    05/04/2012

    Muito bom, o texto. Bem escrito.
    Abraços

    Silas Falcão

  4. Lucas Vieira
    05/08/2012

    Lembrei do Jorge Amado, ateu convicto, imerso na cultura de deuses e orixás. Li em algum lugar que ele teria dito ‘sou ateu, mas não sou cego, vejo os milagres do povo’, não necessariamente com esses termos, mas com essa intenção. Daí é que teria surgido a linda canção Milagres do Povo, do Caetano:

    “Quem é ateu e viu milagres como eu
    Sabe que os deuses sem Deus
    Não cessam de brotar, nem cansam de esperar
    E o coração que é soberano e que é senhor
    Não cabe na escravidão, não cabe no seu não
    Não cabe em si de tanto sim
    É pura dança e sexo e glória, e paira para além da história”

    No mais, bem menos esotérico do que o autor desse bonito e bem escrito texto, me resta andar com fé, como diria o outro baiano bárbaro, ‘mesmo a quem não tem fé, a fé costuma acompanhar’. Então, pelo sim, pelo não…

    • Carlos Mourão
      05/08/2012

      Lucas, a Bahia sabe mesmo como fazer com que as diferentes manifestações religiosas se irmanem e virem somente fé. Fé em Deus, nos orixás, no mar, no corpo, no outro, no pouco e no sorriso. E esses poetas baianos são danados mesmo, né?! Mas danado também é tu, que tem uma fé danada no pensamento vivo e delicado. =)

  5. Anónimo
    03/29/2013

    Axé meu velho! Belíssimo texto! Márcio Aguiar

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This entry was posted on 04/27/2012 by in Filosofia de bar.

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