Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

O toque nos tempos de capital

Sabemos que as revoluções liberais do século XVIII foram as responsáveis pela construção do indivíduo ocidental junto à quebra de um pensamento secularmente hegemônico. Inegavelmente, isso trouxe muitos avanços, especialmente jurídicos. Aquele que comete um crime não ter mais sua pena estendida Imagemà família é um exemplo. Mas até que ponto essa herança nos é favorável? É aquela linha tênue entre individualidade e individualismo em qual tentamos nos equilibrar para não despencar nem no abstracionismo e nem no egoísmo, embora para mim egoísmo já seja uma redundância de individualismo.

Reconhecer o outro indivíduo, que vai para além do nicho social do qual ele provém, é afirmar a universalização da dignidade da pessoa humana, mas o contrário é mais que necessário: reconhecer o indivíduo como produto de suas origens, seu meio, sua época. O primeiro reconhecer nos traz uma premissa muito importante: a inviolabilidade do corpo humano. Não preciso nem comentar o quanto as instituições sociais e políticas a violam diariamente.

Mas queria era jogar aqui na mesa a maior deturpação do conceito de inviolabilidade do corpo, que é a repulsa pelo contato físico despretensioso. O respeito ao my space dos americanos. Há uma regra social invisível, mas muito cumprida, que é a de não nos tocarmos, a não ser que nossas relações tenham um mínimo de definição. Será?

Quando a gente entra num ônibus, temos o cuidado de sentarmos primeiramente nas cadeiras vazias, afinal, temos de respeitar o espaço do outro e afirmar o nosso próprio. Apenas quando todas as cadeiras são preenchidas é que começamos a sentar nas cadeiras já ocupadas. O que me é estranho é que a mesma cerimônia não existe ao subir no ônibus. Como cearense tem uma incapacidade voraz para fazer/respeitar filas, o ato de subir num ônibus lembra uma cena de filme de fim dos tempos como mote, todos se esmurrando para salvarem suas vidas ao entrar no abrigo nuclear, ou sei lá o quê.

O que está de errado nesse quadro? Temos cuidado para não nos tocar por acidente, mas não temos a menor diligência para não nos empurrarmos, pisarmos no pé do outro, garantir que todos possam usufruir do transporte coletivo sem ter sua integridade física violada.

Para mim fica evidente quais os valores que as revoluções burguesas incorporaram a esse indivíduo por elas fecundado. E essa deve ser uma frente de luta daqueles que querem revolucionar o que aí está. Temos confundido respeito com frieza e violência como meio banal de afirmação do eu. Tenho extrema dificuldade em acreditar que uma maior distribuição de renda, uma reforma agrária, cotas universitárias raciais, elevado número de vagas em creches públicas de qualidade e casamento de casais homossexuais por si só são conquistas que vão alterar valores tão introjetados em nós.

Sei que tudo o que apontei acima são apenas reformas, mas é que realmente não consigo vislumbrar revoluções nesse quadro de distanciamento entre os indivíduos. E é só passar os olhos de novo pelas bandeiras de luta acima para relembrar o quanto, na maioria dos casos, estas são pautas isoladas e os movimentos, e a esquerda em geral, fazem questão de traçar seus próprios caminhos, fragmentando-se cada vez mais e sem a preocupação de se tocarem a não ser para embates mesquinhos.

O que eu realmente enxergo é que, enquanto não admitirmos que guardamos mais ideais burgueses do que gostaríamos, não teremos matéria para lidar com eles e o superarmos. Podemos colocar uma etiqueta de pós-modernidade nessa preocupação e continuarmos a ignorá-la, avançando em certos pontos e retrocedendo em outros. Ou podemos respirar fundo e nos abrirmos a essa violência psicológica e emocional que é reconhecer as próprias contradições e fazer o árduo trabalho de identificá-las diariamente e trabalha-las.

Nos encontros estudantis de esquerda, existe uma dinâmica que consiste em as pessoas formarem um círculo e beijarem uma parte do corpo, da pessoa ao seu lado, que ninguém na roda já tenha beijado. Se o número de pessoas for muito grande, a quantidade de espaços permitidos no corpo do outro vão se reduzindo. Quando você está ao lado de um completo desconhecido é uma experiência, no mínimo, interessante. É um carinho no corpo de alguém que não conheço. Por que isso é tão proibido, afinal?

Quer dizer, não vamos entrar em discussões morais, vamos? Nesses meus vinte e dois anos de existência na cidade de Fortaleza, eu não consigo pensar em muitos amigos e amigas que só tenham tido relações sexuais, ou mesmo beijado, pessoas que conheciam extremamente bem e nutriam grande atração intelectual/espiritual pelas mesmas. E você? Então, por que raios eu posso passar a mão na pélvis de um estranho, dar um empurrão num estranho e não posso lhe fazer um cafuné despretensioso?

Para mim, deveria ser um exercício constante de amor ao outro ser humano só porque ele tem um coração pulsando dentro dele e uma cabecinha cheia de sonhos e medos. Quem me conhece sabe que eu tô longe de nutrir esse amor e respeito por um estranho qualquer. Principalmente se esse estranho estiver usando uma camisa Aeropostale e escutando forró, sem fones de ouvido, no ônibus.

Mas vamos lá, eu reconhecer que isso é um preconceito e um baita de individualismo da minha parte já não é algo? É entender que a pessoa é mais do que uma cena que você guardou dela, mais do que uma palavra, uma ação. Eu não proponho que saiamos amando todas as pessoas que cruzarem nosso caminho em 5, 4, 3… a elas proponho respeito, principalmente se você for mulher, não aconselho grandes manifestações físicas com um cara estranho que não lhe interessa. Mas há as pessoas da nossa dinâmica diária, mesmo as que não são de esquerda, nem libertárias, proponho menos cerimônia ao toque despretensioso e mais amor fraterno por aqueles que nos circundam. Se a gente distribui mais amor, fica difícil uma única pessoa quebrar o nosso coração. O amor é a melhor arma de combate e defesa na dinâmica urbana. Tente ser amável com alguém que acabou de ser um tremendo idiota com você e depois me conta, tá?

Para finalizar, vai um poema do Leminski para adoçar essa manhã ingrata de segunda-feira e que tem tudo a ver com esse post. Buenas, camaradas!

En la lucha de classes
todas las armas son buenas
piedras, noches, poemas”

Leonísia F.

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2 comments on “O toque nos tempos de capital

  1. Lucas Vieira
    05/02/2012

    Léo,

    que texto bacana, gostei do modo como tu costurou as cousas. Nós somos ainda muito travados para muitas coisas, fruto de um processo de vigilância sobre os nossos corpos e gestos. O indíviduo forjado nessas concepções liberais, é o indíviduo também racional, que se não tenta excluir suas emoções, tenta racionalizar, ao máximo, seus sentimentos. É daí que existe uma distância muito grande entre as pessoas.

    Essa distância só não é percebida ou mantida justamente em exemplos como esse que tu deu. Onde o interesse individualista prevalece. E não é incoerente, faz todo o sentido.

    O que acho bacana do Paulo Freire é quando ele fala do amor. Sem nenhuma pieguice. Não é um amor que substitui ou encobre conflitos, não é um amor passivo, ou um amor à la Poliana. É amor como uma atitude ética e que tenta potencializar, ao meu ver, sentimentos que nos fazem melhor, enquanto indivíduos e sociedade. Por isso a prática política, para ele, tá vinculada ao amor.

    Eu tento, embora queira todos os dias, não fazer um paralelo dos meus 40 dias em Niterói com os de Teresina. Não dá pra comparar que os últimos 06, 07 anos foram muito importantes para quebrar e mudar o travamento que eu tinha (e ainda tenho, só que menos) em lidar, expressar sentimentos. De um namoro significativo de 03 anos à uma imersão dentro do movimento estudantil. Mas quando quero fazer esse paralelo, teimo por concluir que cada vez que se desce o brasil – ou talvez, cada vez que vamos indo pra “”civilização”” – essa distância entre nós (ou esses nós dentro da gente) vão aumentando.

    No mais, vou concordando contigo, que continuemos nos acotovelando, pisando no pé um dos outros, empurrando(deve ter um lado bom disso), mas que vamos também nos cheirando, abraçando, beijando, dando e recebendo carinho.

    xêro, Leonisia F. Abriu pensamentos na minha cabeça.

    p.s.: adorei tu ter citado a dinâmica do beijo. [momento ego] Não sei se já existia ontem, mas eu lembro de ter proposto essa dinâmica com base em uma dinâmica que foi feita por uma amiga do CORAJE há tempos, onde a gente tinha uma melancia e tinha que passar de diversas formas. Daí, como sou saliente, resolvi propor pra que fizéssemos isso com a do beijo também.

    • leonisiaF
      05/02/2012

      Seu lindo, que felicidade receber um comentário e ainda mais teu!
      Bom, de fato não existe contradição nos exemplos que eu dei, né? Faz todo o sentido nessa lógica burguesa e é importante a gente evidenciar isso.

      Vou te confessar que propor o amor, bem nesse sentido freireano que tu colocasse, como linha de frente tem sido difícil. simplesmente é ignorado e subestimado e eu fico achando que, se a gente se amasse mais, tanto stress, falta de respeito e trollações seriam evitadas nesse âmbito de ME e aj(u)p.

      Bora esticar essa conversa numa mesa de bar na lapa daqui a dois finais de semana? hehe

      Quer dizer que a dinâmica do beijinho partiu de ti? Eita coisa bonita, sabia não! A primeira vez que brinquei dela foi no ennajup – fortal.

      Espero que tenha sido lindo em Goiás, saudadona de tu. :* cheirocas.

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This entry was posted on 04/16/2012 by in Bebo e viro militante, Conversas ao pé do balcão.

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