Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Olhai os muros da cidade

 Alguém aí já tentou meditar? Gente, que coisinha difícil, viu!? Praticando meditação, descobri que não se trata apenas de procurar um local calmo e silencioso. Depois de alguns minutos meditando, você quase não nota mais os barulhos do ambiente. O mais difícil é silenciar a mente, a danada não cala nunca! Quanta barulheira, quantas vozes que se entrecortam. Lembrei de quando eu era adolescente e fui dormir na casa de uma amiga que morava perto do aeroporto e ao lado de um bar, três horas da manhã pareciam três da tarde.

Conversando com meu professor de Yoga, ele me aconselhou que não é questão de silenciar a mente, mas de tomar consciência de cada manifestação de pensamento e colocá-lo no seu devido lugar com a sua devida emoção. Isso facilitou muito e tem trazido muita paz. Paz! Esse é outro termo, ou prática, que a Yoga me fez repensar. Confesso que dou um pouco de descrédito quando alguns grupos espirituais utilizam esse termo de uma forma tão desconexa da minha realidade.

Mas li alguns conceitos de que a paz, para a Yoga, não se assemelha a um estado de inércia e mero conformismo, tampouco é algo que se alcança isolando-se do ambiente e das mazelas do mundo. Não se trata de anestesiar o corpo ou a mente, mas de uma agitação e busca radical por verdade e justiça. A paz é prática e é vibrante. O que está imóvel ou intacto pode, no máximo, ser uma tola busca pelo estado de paz. Não sair da própria zona de conforto está longe de ser paz.

Contemplar é palavra de ordem na Yoga. É muito fácil sentir boas energias contemplando uma cachoeira, o oceano, o mirante de uma serra ou o céu no entardecer. Mas e quanto à nossa cidade? Às suas ruas e os seus muros? O que eles nos revelam? Agonia, stress, impureza? A arquitetura de uma cidade nos revela o senso de estética dos que nela habitam, ou pelo menos de uma camada bem definida dos que nela habitam. Sendo objetiva, quem produz a cidade é quem de recursos dispõe para tanto.

Que bonito seria se todos os muros da nossa cidade se prolongassem no tempo limpos e bem cuidados, da forma como foram construídos, não é? Talvez nossos olhos festejassem mais ao contemplar a cidade. Entretanto, alguns indivíduos vêm na calada da noite e imprimem suas assinaturas ou recados para amantes, amigos e inimigos no muro que a família da esquina acabou de pintar! Que sacanagem, né? E quando picham o patrimônio público? Universidades, Prefeituras, escolas, hospitais, igrejas… O que será que esses indivíduos querem nos dizer?

Pichar constitui crime com pena de detenção e multa. Com décadas de luta, o grafite vem sendo cada vez mais reconhecido como forma de arte, mas desde que em locais bem definidos da cidade. Fortaleza está repleta deles, principalmente na Avenida da Universidade, no bairro Benfica. Lembro de todo ano alterarem o grafite do muro da Reitoria, mas o que está hoje já dura um bom tempo e é, sem dúvidas, o meu preferido. Estampado está um pedaço da história política do Brasil que desemboca questões até hoje e não pode nunca ser esquecido. Depois de algum tempo, nesse mesmo muro, também se imprimiram outras mensagens: cotas para negrxs, creche universitária, liberdade de amor entre o mesmo sexo, etc. Mais sujeitos querem ter suas mensagens propagadas.

A arte do grafite é política e não somente pela mensagem que expõe, o próprio modo de expor essa mensagem é político. Os demais habitantes vêm dizer que não está tudo em paz em só aqueles que possuem dinheiro poderem expressar seu senso de estética na cidade. E é por isso que não devemos fazer concessões morais apenas para o grafiteiro contratado para deixar certos muros mais coloridos. Sem desmerecer a arte dos grafiteiros, a qual eu aprecio e divulgo, não podemos ignorar e rotular de vandalismo o que as pichações querem revelar.

O imperador Shah Jahan mandou construir o Taj Mahal para declarar publicamente o seu amor à esposa Aryumand. Bush filho divulgou aos quatros cantos do universo que Osama Bin Laden era seu inimigo número um, digo, inimigo dos EUA. Como eles fizeram isso? E o resto de nós, pobres mortais? Como expressamos nosso amor, nosso ódio? Se o Fulano de Tal expressou seu amor pela namorada no muro novo da família da esquina como posso eu, da janela da minha casinha, interpretar tal fato? Devo me conformar em só os que têm poder de voz conseguirem expressar em larga escala suas emoções, suas crenças, seu discurso político?

A cidade é um organismo todo integrado. É como o nosso corpo. Sabe quando você esbarra sua perna na quina da mesinha de centro e fica um roxo na sua canela por dias? Você não vai deixar de andar, claro, mas o roxo tá lá denunciando que, afinal, houve uma pancada e doeu pra caramba, e ainda dói. O roxo deixa sua pele feia, mas a culpa é do roxo ou da pancada na quina da mesa? Aliás,  que culpa tem a canela se quem se desequilibrou foi o pé?

Sem fazer apologia a qualquer tipo de pichação, e as entendendo bem diferentes dos grafites, os quais são arte por excelência, tendo a interpretá-las como sintomáticas do modo como o nosso organismo urbano vem se construindo. Sendo um todo integrado, problemas que surgem acolá, vêm se reverberar bem ali na minha esquina. E quanto mais teimarmos em não vermos que tudo é uno e interligado, mais problemas surgirão e menos soluções teremos.

Deixo aqui a minha mensagem: olhai os muros da cidades e os interpretai. E, se buscas paz, não foges da agitação e da inquietação do processo.

Para ver mais muros além dos do seu dia a dia indico o twitter @olheosmuros e o tumblr  http://olheosmuros.tumblr.com. Você também pode contribuir com a equipe tirando fotos de muros e enviando para o e-mail deles.

Leonísia F.

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3 comments on “Olhai os muros da cidade

  1. Tatyana França
    01/09/2013

    Leonísia, cheguei aqui pesquisando para tentar saber como andam os muros do Benfica, bairro do meu coração. Lembro que antes de ir embora de Fortaleza, uma das coisas que mais fazia era andar pelo Benfica e admirar seus muros. Eu sempre dizia a mim mesma: vou tirar foto dessas imagens, gravar tudo isso. Mas o tempo passou, saí da cidade, não tirei as fotos, os muros mudaram – continuam mudando – e as imagens que vi se perderam da minha memória. Agora, tento rever um pouco do que esqueci e admirar o que mudou. Teu post ajudou. 🙂

    • Merece uma dose!
      02/01/2013

      Poxa, moça, que bom. Os muros realmente mudam mais rápido do que a nossa dinâmica pode armazená-los. Vou tentar rechear mais com as últimas mudanças.

  2. Tatyana França
    02/01/2013

    Opa! Ok. Espero poder ver em breve como andam os muros fortalezenses!

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This entry was posted on 04/03/2012 by in Filosofia de bar, Ressaca moral and tagged , , .

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