Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Entretenimento: consuma com criticidade

Adoro televisão. Pronto, falei. Desde criança tenho uma relação bem próxima com a televisão. A Imagemprimeira coisa da qual lembro de assistir é a TV Colosso. Meus pais sempre gostaram muito de filme e eu, com uns doze anos, já devia ter visto boa parte do legado de Charles Chaplin. Infelizmente, Disney também era muito incentivado na minha casa e eu sei todas as falas de A pequena sereia, A Bela e a Fera e O Rei Leão decoradas de trás para frente.

Minha pré-adolescência foi permeada pela invasão anime no Brasil: Pokémon, Sakura Card Captor, Sailor Moon e vários outros que a memória não me deixa elencar, mas eram muitos! Na adolescência, vieram as séries norte-americanas. Ah, quantos dramas! A primeira que lembro de acompanhar religiosamente é One Tree Hill. Toda terça-feira, das 19h às 20h, quem me ligasse durante esse horário não prezava pela minha amizade. E partir daí o consumo só aumentou: Felicity, Gilmore Girls, Dawson’s Creek, Sex and the city, Everwood, Grey’s Anatomy e infinitas etecéteras.

Boa parte das minhas horas de ócio e lazer foram destinadas a acompanhar séries americanas. Ok, nunca sonhei em ser uma cheerleader e sempre me identificava com o elo mais fraco de qualquer relação, mas, honestamente, ignorava boa parte de pré-conceitos e opressões despejados por episódios. Só com o amadurecimento pessoal e político foi que algumas questões começaram a ficar mais evidentes como as piadinhas anticomunistas, a notável ausência de personagens negros/as e o papel secundário das personagens femininas.

Hoje, o que realmente mais me incomoda é o machismo velado da esmagadora maioria das séries, até mesmo nas séries com protagonistas mulheres. Puro reflexo do machismo velado da sociedade. Não, não é só a Gaiola das Popozudas e o Wesley Safadão que produzem entretenimento machista. The Beatles e Nação Zumbi também. Compreender essa face oculta das opressões é essencial pra consumir criticamente o entretenimento e refletir sobre o nossos próprios pré-conceitos.

Acompanho, com menos assiduidade, ainda duas séries: Skins e Parenthood, as outras ficam para quando dá. Mas morro de saudades de outras e, recentemente, comprei todas as temporadas de Sex and the city, a minha bíblia adolescente de sexo e relacionamentos.

Adoro a voz da Sarah Jessica Parker narrando os episódios, adoro o fato de a personagem dela, Carrie, Imagemser uma escritora de cabelos loiros cacheados e ficar no eterno limbo entre relacionamento estável e liberdade de solteira – pausa para identificação da espectadora. Mas o mais legal é ver retratado na série coisas que as mulheres vivem na sua vida sexual e amorosa, não necessariamente acompanhadas, e que não saem por aí comentando porque, na boa, mulher ainda é educada para cumprir certos papéis bem designados nessa área. Ou você é uma mulher que faz amor comportado com seu namorado/marido ou você é super “bem resolvida” sexualmente e vale tudo com você, se não valesse, você deveria se comportar como a mulher monogâmica que faz amor.

O cúmulo desse vale tudo com mulheres independentes é quando vale até mesmo sem o consentimento delas. Esse extremo nem sempre é alcançado, o que não significa que outras opressões e constrangimentos não ocorram. Essa é uma temática frequentemente abordada na série e, nesse ponto, só sendo mulher para entender certas questões. Episódios emblemáticos são os da Charlotte tendo sua cabeça empurrada para o órgão masculino para garantir ao cara um bom blow job, algo que ela nunca tinha feito na vida e não tinha a menor vontade de fazer e o da Samantha em que um parceiro sexual fala para ela que tá na hora de depilar lá em baixo, sem o menor constrangimento.

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Comportamentos masculinos que denunciam a crença de que o corpo da mulher é feito para agradá-los e deles dispor como bem entenderem. Outros temas também são abordados na série: Ser mulher significa ser mãe? E ser mãe e esposa significa abandonar a carreira profissional e se dedicar em tempo integral ao lar? Mulheres e homens realmente ocupam o mesmo lugar no mercado de trabalho? Mulheres com mais de trinta anos passaram do prazo de validade? Mulheres solteiras são realmente felizes? Mulheres são amigas ou só falsas e competidoras?

O balanço é sempre positivo para o feminismo? É nada! Longe disso. Por trás das quatro personagens femininas, há produtores e investidores homens, comprometidos com a soberania do capital, e séculos de opressão masculina. As personagens despejam machismo em vários episódios, especialmente o velado, o quase invisível. Mas ainda assim são mulheres independentes, solteiras e profissionais tentando viver num mundo que não é feito para elas e, com isso, vão quebrando paradigmas. Conjugar isso com humor e estética me garante boas horas de ócio na frente da TV.

ImagemNinguém se dispõe a qualquer entretenimento se dele não restar um mínimo de identificação. Pelo menos comigo é assim. O caso é que boa parte do nosso entretenimento, e o de mais fácil acesso, reflete nossa sociedade mesmo: consumista, machista, xenófoba, homofóbica, racista, etc. E assim como eu ainda não rompi com várias esferas do capitalismo na minha vida, ainda não rompi, nem estou pronta para romper, com o entretenimento capitalista. Mas o entretenimento não só reflete, ele também instiga e legitima nossas condutas, e é aí que temos de aguçar nossa criticidade.

Assisto Sex and the City e leio Beauvoir e Marie de Gouze. Contradição? Acho que sim, mas menos do que se evidencia. Antes de ser de esquerda e feminista, sou mulher e me identifico, com as devidas críticas, a vários tipos de mulheres. Das que acordam cedo para fazer a refeição do marido e filhos às que desfilam de Manolo Blahnik nas grandes capitais mundiais. Somos todas mulheres e não nos reconhecermos como integrantes de um mesmo segmento que vivencia várias coisas em comum foi um dos fatores que mais contribuiu para retardar a conquista de garantias políticas e outras liberdades. Enfim, no fundo da rede, assistindo Sex and the city, formulando politicamente e sonhando com a próxima dose de cosmopolitan.

Leonísia F.

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This entry was posted on 03/26/2012 by in Conversas ao pé do balcão, Happy Hour and tagged , .

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