Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Meu corpo é a cidade ou um menino praticando yoga.

De uns tempinhos para cá eu tenho começado a praticar yoga e ele tem feito parte dos meus dias. Faço duas vezes por semana, mas meu pensamento sempre vai ao seu encontro.

Não, não sou uma pessoa zen pelo fato de ser um neófito no yoga e ser vegetariano. Me considero uma pessoa tranquila e serena em boa parte das horas, mas zen não. Um exemplo disso é minha relação com o trânsito, pois basta eu entrar no carro para virar o Pateta.

Reclamo, esbravejo, fico impaciente e causo grandes emoções aos meus passageiros. Costumo dizer que só tenho um problema no trânsito: ter alguém na minha frente! Se isso faz de mim um ser humano inferior ou ruim, não me importa, ou vai dizer que você acha o trânsito daqui uma maravilha?

Se bem que a prática tem me ajudado um pouco até no trânsito. E é exatamente isso que tenho percebido desde que me permiti praticar: yoga é, sim, um estilo de vida.

Vou tentar explicar um pouco esse meu sentimento novo e que há muito flertava com ele, mas nunca tinha parado e decidido que o yoga faria parte da minha vida ou seria um dado essencial de mim.

Ficava muito curioso e tentava entender como alguns movimentos, que chamamos de asanas, poderiam permitir uma melhora no corpo e na mente (como se fosse possível separá-las!). E via aquelas torções, quase contorcionismo, como algo impossível de fazer com o meu corpo.

Bum! Exatamente aqui onde entra a magia do yoga: começamos a perceber os nossos limites e, paulatinamente, por meio da prática, vamos expandindo esses mesmos limites. Ou seja, conhecer e expandir com consciência.

É sempre preciso saber quais os limites do teu corpo para não se machucar. É preciso que eu saiba que posso me esticar até o meio da perna e, não, até o chão sem o perigo de estourar algum músculo.

Por isso que chamamos praticar, pois a prática leva à perfeição (ou a um melhoramento significativo, como prefiro).

Esses movimentos me servem para eu pensar na minha condição humana, pois sou um ser limitado e que não conhece esses mesmos limites. Sim, não os conheço, pois o limite é algo puramente mental, são as amarras do pensamento. Prova disso é que quanto mais me mexo, mais consigo me esticar e mais vou expandindo aquilo que julgava ser uma limitação.

Um fato bobo e simbólico foi que no começo das aulas não conseguia encostar a ponta dos dedos da mão no chão estando em pé e sem flexionar os joelhos. Hoje já faço isso e ainda consigo segurar a posição. Você consegue fazer isso também?

Pois é, foi exatamente aí que percebi que não estava somente praticando yoga, estava aprendendo a ser gente.

É que a gente anda num ritmo tão corrido que nem nos esticamos. Ficamos zanzando de um lado para o outro nessa cidade, com a cabeça cheia de pensamentos, com os pés calçados, sedentários e geralmente passamos os dias sentados que esquecemos até do nosso corpo.

Comecei a achar absurdo nunca ter feito determinada posição, nunca ter feito respiração baixa, só com as costelas, peitoral ou geral enchendo o pulmão de ar. Quanto mais doíam as posições, mais eu pensava: tenho esse corpo há 25 anos e não sei nada sobre ele!

Meu corpo estava ficando como os meus pensamentos, pois quanto mais pensava para fora de mim (prazos, contas, relatórios, obrigações etc.) mais meu corpo se adaptava a não pensar nele, só nos movimentos necessários para realizar minhas coisas do cotidiano. Eu-máquina.

Era mesmo um corpo feito para atender à vida urbana, com seus movimentos repetitivos, um corpo flácido, pouco flexível e amarrado a uma lembrança gestual específica.

Assim fui construindo o meu corpo para ser usado pela cidade. Fui absorvendo todas as angústias e dores desse sertão urbano e dando nós em meus músculos até não mais encostar a ponta dos dedos no chão. E o pior: fui esquecendo de fazer isso e meu corpo também esqueceu que ainda podia.

Não tive outra escolha a não ser tentar mudar isso e desconstruir meu corpo, saber dele, esticá-lo, brincar de ser menino, fazer inversões, sentir um pouco de dor e ao final relaxar profundamente com meditações.

E hoje esse sou eu tentando saber do meu corpo e dar mais vida a ele. Eu esticando músculos e pensamentos. Eu em expansão, ainda que lenta.

E você sentado aí, consegue encostar a ponta dos dedos no chão ou os nós da vida te prenderam?

Carlos Mourão.

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4 comments on “Meu corpo é a cidade ou um menino praticando yoga.

  1. Anónimo
    10/21/2011

    como sempre…
    um belo texto!
    Tinha que ser vc!

    • Carlos Mourão.
      10/21/2011

      Gracias, stranger. =)

  2. Gisele Magalhães
    10/21/2011

    Agora, eu me preocupei!!!
    Sou a última das sedentárias?!
    😛

  3. Aqui em casa tinha um livro de Yoga, ele sumiu sem explicação. Dos males o menor, pelo menos alguém deve ter encontrado e resolveu praticar.

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This entry was posted on 10/21/2011 by in Conversas ao pé do balcão and tagged .

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