Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

A vida como ela não é.

Talvez uma ou duas pessoas diga o seguinte: “a vida não tem tanto drama quanto imaginamos”. E eu seria uma dessas duas pessoas. Primeiro preciso explicar uma coisa sobre o drama, mas claro que o farei baseado na experiência de vida e não num conhecimento técnico e artístico. Sempre imaginei o drama como um estado surpelativo das emoções humanas, uma apresentação exagerada das nossas paixões; que já são por si só algo constituído de exageros. Mas aquele Drama que vemos ser ‘representado’ fica ainda mais carregado de riso ou choro, e esse tipo de Drama foi muito desenvolvido pelo teatro desde o seu nascimento. Mas antes que eu comece a falar como um pedante que só conhece a superfície de um conhecimento e vai logo mergulhando nesse mar com quilômetros de profundidade, vou parar de falar aqui sobre o Drama do Teatro, pois o único drama que conheço de fato é o drama da vida. Claro que podemos traçar relações entre a duas esferas, mas vou esperar aprender mais sobre o Drama. Portanto, fiquemos com o drama com ‘d’ minúsculo.

Recentemente li sobre um conceito chamado “dramaturgia desdramatizada”. Então eu disse: “pronto. Achei mais um termo pra resumir o que seja a vida.” Foi um daqueles momentos de êxtase intelectual, em que seu espírito parece estar tendo múltiplos orgasmos. Passado o gozo mental, eu parti para um estudo mais apurado. Li textos sobre a vida comum, o homem comum, o cotidiano, ou seja, tudo que tinha a ver com o ‘ordinário’. No entanto, eu já tinha uma base literária sobre tal assunto. Desde Henry Miller até Bukowsky, e passando pelos beats, é claro. Juntando o meu conhecimento de antes com o de agora eu pude perceber que poucas ou quase nenhuma vida se desenrola como naqueles Dramas com ‘D’ maiúsculo. Pude notar que nosso choro ou nosso riso era bem menos caricato que aquele representado; talvez seja uma necessidade da arte teatral ser tão hiperbólica. Claro que na vida há momentos muito próximos daqueles do Teatro, ou artes em que envolvam atuação; mas o dia a dia, o cotidiano; o ordinário vem com bem menos tragédia ou comédia. Talvez por desejarmos tanto que ele tenha muito disso tudo, que nossos antepassados tenham criado a arte para vivermos essa magnitude das emoções.

Deixando as especulações históricas, vamos prestar atenção ao seu dia, ao meu dia, e a de tantos outros. Dificilmente vemos aqueles arroubos emocionados ou aquelas maneiras marcadas de falar. Não temos gestos, nem marcas, nem diálogos a serem decorados para depois serem representados diante dos outros. Não temos tempo pra ensaio, nem sequer admitimos uma direção de nossos atos, a não ser a nossa. O cotidiano é toda hora, sem essa de estudar o personagem de si mesmo. A vida não nos deixa tempo para que pensemos uma Dramaturgia mais elaborada, nós seguimos mesmo é com a pequena dramaturgia, aquela desdramatizada, aquela dos gestos originais, das falas em fluxo, dos sentimentos livres, das emoções contingentes, dos comportamentos comuns. Onde somos mais autênticos do que se estivéssemos num palco tendo que representar o que já somos de uma forma supra-idealizada. Meio paradoxal até, ver seres humanos representando seres humanos. Talvez por isso a arte teatral seja tão maravilhosa, por ter em seu âmago um paradoxo tão espetacular como esse. E fiquei admirado quando vi que essa arte chegou ao ponto de quase imitar perfeitamente a vida, de se aproximar dela com esse conceito de “dramaturgia desdramatizada”. No entanto, o texto não pretende ser um Elogio do Teatro. E se me pedissem para resumir do que se trata este texto, eu diria: É uma dose invertida de Nelson Rodrigues; é a vida como ela não é. Uma dramaturgia desdramatizada; mas nem por isso menos espetacular.

Como diria Bukoswki: “Não existia melhor espetáculo que os outros, e nem precisava pagar a entrada”.

E trate de se incluir nesse espetáculo; pois com certeza, você é o personagem preferido [ou odiado] de alguém.

Davi Queiroz Machado

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About Davi Queiroz Machado

Já morri duas vezes, e voltei antes do terceiro dia, não subi aos céus, não sentei à direita ou à esquerda de Deus pai todo poderoso. No entanto, estou num coito divino com as palavras. Como diria Manoel de Barros: “O Poeta é um ente que lambe as palavras e depois alucina”. E a Linguagem é um tema que me interessa muito. Seja literária, filosófica ou cinematográfica. Estou procurando uma síntese entre essa santa trindade, mas não quero me arriscar a fundar uma nova religião. Meus dogmas são diferentes do Dogma em que Lars Von Trier se meteu; minha filosofia ainda não foi defendida, pois ela é mais parecida com uma lança do que com um escudo; minha literatura não tem compromissos com fronteiras geográficas ou culturais. Estou eternamente na atuação do personagem de “Estranho no Ninho”: com a mente sã, e mesmo assim num hospício coletivo que chamamos de sociedade. Melhor assim, talvez eu ganhe um Oscar ou quem sabe uma Framboesa de Ouro. Mas o que eu quero mesmo é tomar, com vocês, intermináveis doses de poesia etílica.

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This entry was posted on 10/05/2011 by in Filosofia de bar.

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