Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

O meu tsuru para a Cor.

Ela me chegou num abraço forte e cuidadoso. O abraço já veio com um sorriso que me acalentava e dizia: “pronto, agora já nos encontramos”.

Desde então esse pedaço que nos faltava veio se preenchendo de muito: militâncias vermelhas, literatura colorida, carinhos brancos e dores cinzas, mas o cinza da dor logo aprendeu a ir embora.

Chegamos de pantufa na terra do coração do outro, acomodando-se calmamente nesse chão que era recém conhecido, mas que já se fez moradia nos primeiros dias.

A menina era tímida, de voz baixa, olhos atentos e perninhas cruzadas devidamente acomodadas nas cadeiras do nosso primeiro espaço em comum: o Saju.

Começamos a nos chamar de “nós” todas as vezes que terminavam as reuniões do grupo. E esse nós esticou a mão para sentir o outro. Não demorou muito e essa mão esticada virou uma ponte.

Lá do alto dessa ponte começamos a ver mais e melhor. E essa mesma ponte se fez caminho para que tantas pessoas amadas entrassem em nossas terras.

Em nós pisou o candomblé e a menina se viu filha de Ogum com Iemanjá andando com esse Oxaguiã e Iansã. Depois ela foi conhecendo os Sem-terras, os sem-casa e os sem vozes.

Isso começou a doer nela, por isso aprendeu a se fazer forte, afiar sua espada e colocá-la na mão. Pronto, ali já se via a “dama de espada na mão”.

Então ela foi crescendo, amando, largando um antigo amor, usando suas saias coloridas, seus brincos de pena, deixando-se mais solta, malemolente e transformando-se na Luft.

A Luft que escreve coisas lindas, que sempre me surpreende com suas águas, que sempre é mais do que imaginamos e a moça que distribui tsurus entre os seus.

O primeiro presente que ganhei dela foi um lindo cordão cheio de tsurus coloridos, conchas e sementes, além de uma carta que guardava nas letras o segredo do nosso mar.

Ah, o mar sempre esteve conosco, mas o mar confidente, o mar da noite, o mar e essa dama silenciosa.

Além do mar, tínhamos o vento. Sempre o vento! Vento forte, vento fraco, brisas e tufões.

Atravessamos dor de morte, dor de amor, dor de desamor, dor de vazio e dor de cabeça das ressacas incontáveis.

Mas nenhuma dor resistia ao nosso amor-escudo.

Não, não nos amamos só para nos sentirmos protegidos. Amamo-nos pelo simples fato de saber que a nossa amizade nos faz feliz e humanos. Que existe irmandade pura entre a gente e que conhecemos os defeitos mais escondidos do outro e mesmo assim sobra amor.

Isso é difícil hoje em dia: o outro ver todos os defeitos alheios e mesmo assim ser capaz de amar e ainda sentir falta do seu sorriso!

E assim esse menino de vento e sua Cor vão inventando os dias, mesmo que esse ser de vento aqui suma em outras folhas e pareça esquecer da Cor. Mas sabe de uma coisa? Vento não tem cor e talvez por isso mesmo não entenda bem dela, mas ele está em todo lugar!

Desculpa pelo sumiço e por ser tão de vento, mas a vida sem cor fica tão triste…

Ah, e toca teu agogó lá embaixo do meu pé de acerola?

Amo-te!

Carlos Mourão.

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5 comments on “O meu tsuru para a Cor.

  1. Anónimo
    09/27/2011

    ah Carlos 😉
    que lindo,amigo!
    e que essa amizade linda de voces dure ó…. eternamente.
    amo voces dois e mais um monte de gente que se faz presente nesse nosso círculo de amizade.
    Andréa Barrozo

  2. Anónimo
    09/27/2011

    ‘Não, não nos amamos só para nos sentirmos protegidos. Amamo-nos pelo simples fato de saber que a nossa amizade nos faz feliz e humanos. Que existe irmandade pura entre a gente e que conhecemos os defeitos mais escondidos do outro e mesmo assim sobra amor.’

    que coisa mais linda, de deixar a gente com o nó na garganta. que esse encontro encantado de vocês continue ecoando em vários outros corações.

  3. Lucas Vieira
    09/27/2011

    ‘Não, não nos amamos só para nos sentirmos protegidos. Amamo-nos pelo simples fato de saber que a nossa amizade nos faz feliz e humanos. Que existe irmandade pura entre a gente e que conhecemos os defeitos mais escondidos do outro e mesmo assim sobra amor.’

    que coisa mais linda, de deixar a gente com o nó na garganta. que esse encontro encantado de vocês continue ecoando em vários outros corações.

  4. Priscila Lima
    09/29/2011

    lindo demais. =)

  5. Rafael Martins
    10/13/2011

    Bonito texto. Parabens Mourão.

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This entry was posted on 09/27/2011 by in Conversas ao pé do balcão.

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