Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

“Obrigada, senhores!”

Sábado passado, dia 10/09, fui com a Maria Gabriela a Natal ouvir a voz mais incrível da música brasileira: Maria Bethânia. Fomos ver o show “Amor, festa e devoção”, que está em turnê desde 2009.

Esse show arrebatou muitas pessoas e encantou muitas terras na Europa, boa parte do Brasil, nos EUA e em alguns países da América Latina. Ele é de uma delicadeza e força incrível, basta ver e/ou ouvir o DVD, que é a junção dos dois últimos cd’s costurado com outras canções belíssimas.

Só uma pessoa como ela tem respaldo para lançar dois cd’s ao mesmo tempo: o Tua, que traz canções de amor, e o Encanteria, que fala de orixás, caboclos, misticismo, festas e devoção. Todos lançados em 2009.

Para mim, estes discos, em especial, são bem simbólicos, pois o caminho que fiz desde que os ouvi até chegar ao show foi uma caminhada mística, por assim dizer, pois conhecia pouco dela, mas tinha ligações com os temas que perpassam os álbuns.

Ela canta um Brasil sertanejo, fala de águas, de candomblé, das dores de amor, vai catar um pedaço esquecido de nossa terra e dá voz a ele. E tudo isso está em mim, nas minhas memórias.

Por isso, quando saí daqui de Fortaleza fiquei um pouco calado no avião, pensando no muito que sabia dela e de como esse muito é tão pequeno diante da diversidade cultural que ela divulga.

Pensei na forma de como ela constrói o espetáculo, como escolhe o que vai cantar, de como pesquisa a fundo tudo o que canta, das poesias que lhe chegam e a sua habilidade em dizer as coisas como se fossem completamente novas.

Tudo o que é dito ali tem uma razão muito maior. A voz diz, denuncia, celebra, critica e reverencia o Brasil. O Brasil de recôncavos, de fartura, de secas, de bichos, de gentes e de santos.

Quando o avião pousou, num voo curtíssimo de menos de uma hora, já fiquei ansioso em ir pegar os ingressos, dividir uma mesa com a Gabi, tomar alguma bebida forte e chegar à fila para entrar no teatro.

Assim fizemos: chegamos no apartamento, deixamos as coisas, tomamos banho e corremos para o shopping onde vendia os ingressos e ia acontecer o show. Pegamos, sentamos numa cafeteria e pedi uma dose de uísque, a Maria um vinho e as horas começaram a se arrastar.

O assunto não era outro: Maria Bethânia, sua voz, suas interpretações, quais as canções favoritas, o melhor álbum e mais outras conversas de admiradores do seu trabalho.

Pronto, depois de muito conversar, já estava prestes a começar o show. Fomos para o teatro e ficamos no hall. Fiquei observando as pessoas que iam ver o espetáculo, como se vestiam, sobre o que falavam e imaginei o que teria movido elas a procurarem a voz.

Na tentativa de ficarmos embriagados para sentirmos mais e melhor o show, compramos mais doses e comecei a conversar com o garçom. Perguntei a que horas ela tinha chegado e para minha surpresa ele disse:

– Chegou às 16h, ficou andando pelo palco, sentou, fez a passagem do som, viu como estava a iluminação, a acústica da casa, mas depois de ter feito tudo isso ficou passeando pelo palco, conversando com ele como se fosse uma pessoa.

Bom, isso já foi motivo para aumentar mais ainda a minha ansiedade.

Corremos para procurar nossa poltrona, sentamos e apagaram as luzes. Fechei os olhos, dei uma longa respirada e a voz veio rasgando o tempo: “Minha Santa Bárbara, senhora de mim…”.

Era a voz vindo da coxia, no escuro e fazendo aquela casa tremer. Em seguida, Rosa dos Ventos, em instrumental, para finalmente ela aparecer soberana no palco cantando Vida, do Chico!

Os aplausos e excitações vibraram para ela. Custei um pouco a acreditar que estava lá, vendo um show da Maria Bethânia num teatro.

O show foi crescendo, arrebatando as pessoas, os apaixonados, e as muitas cabecinhas brancas, que eram maioria. Vi muitos casais de senhores com essas mesmas cabecinhas brancas e imaginei quantos amores tiveram e que tiveram a Bethânia como fundo musical, como tradutora dos seus sentimentos.

O momento mais forte foi quando ela relembrou antigos sucessos, como Explode Coração, cantado à capela, Negue, Terezinha, Cartas de Amor seguido dela recitando “Todas as cartas de amor são ridículas”, de Fernando Pessoa, e o ápice para mim: Fera ferida!

Quando ouvi os primeiros acordes e reconheci que era essa a música, fui tomado por um sentimento forte, como um bicho que corre ferozmente, que ganha corpo, voz e sai rasgando a mata.

Tudo muito intenso, nada de amenidades, coisas comuns. Tudo muito simbólico, importante e intimista.

A voz pousou em Balada de Gisberta e pude ver ali na minha frente uma mulher pequenina, incrivelmente pequena, com seus cabelos grisalhos e enormes, suas pulseiras reluzentes, descalça e completamente dona do palco, dos seus movimentos, dos seus sentimentos e das palavras.

Estava eu ali, diante dela. Sentindo sua voz vibrar no meu peito e ouvindo ela recitar o que define muito bem todo o sentimento deste show:

“Livre do meu ofício

Eu gosto de cantar o Brasil caboclo

Tão longe de tudo aqui

E eu canto esse Brasil como quem faz uma prece

Para que ele resista

Apesar da mão do progresso vazio

Que insiste em dizimá-lo

E para que suas modas de viola

No seu encatamento

Ainda por muito tempo

Façam vibrar nossos corações”.

Depois dos aplausos finais, a menina de Santo Amaro da Purificação diz: “Obrigada, senhores!”, aponta o indicador para o céu e sai correndo em total alegria, deixando os corações cheios de esperanças e amor.

Carlos Mourão. 

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2 comments on ““Obrigada, senhores!”

  1. Thalita
    09/12/2011

    Que coisa linda… Fiquei muito emocionada aqui. Obrigada, senhores!

  2. Lucas Vieira
    09/12/2011

    Que lindo esse depoimento.

    Eu, que a colocava e a via como uma grande intérprete (em um país de grandes cantoras), me sinto arrastado com esse texto a conhecer melhor o mundo cantando por Maria Bethânia.

    Eu que já fiquei muitas vezes encantando com a voz e com o canto, vejo esse texto como um convite pra ficar encantado mais ainda, com esperança e amor.

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This entry was posted on 09/12/2011 by in Conversas ao pé do balcão.

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