Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Um brinde à anormalidade.

Sou leitora do blog e me encantei ao tilintar das primeiras palavras em minha tela. O “merece uma dose” tem um ar tão convidativo, tão envolvedor, que me atrevi a sugerir a participação mais ativa daqueles que compartilham dos brindes diariamente. Minha solicitação foi atendida, e cá estou eu, ainda meio perdida sem saber sobre o que escrever, mas com a certeza do querer escrever…

Entre o piscar ininterrupto do cursor do Word e algumas piscadelas nos textos do blog em busca de inspiração, lembrei-me da comemoração do natalício do Carlos Mourão e de uma gafe social desses novos tempos, que resolvi compartilhar com vocês.

Estava numa roda de amigos do meu amigo, entre os quais conheci, com a promessa de muitos sorrisos, um quarteto de atores de teatro (Pedro Guimarães, Glauver Souza, Juracy Oliveira e Pedro Moreira).  E logo ao sentar ao lado deles, perguntaram-me se eu era HT (leia-se, heterossexual), e, dessa forma, ficou clara a minha orientação sexual.

No desenrolar da conversa, o quarteto combinava onde iria passar o restante daquela sexta-feira, e, ao final, decidiram ir ao Clube 20, estendendo o convite a mim e ao meu amigo, o que até então, não tinha me causado surpresa, uma vez que já tinha ido algumas vezes àquela casa noturna. Entretanto, o olhar de espanto dos cinco para mim, me causou uma profunda estranheza, pois como antes dito, já tinha ido a algumas festas lá e o ambiente era totalmente comum: música, álcool, cigarro, pessoas dançando, namorando, paquerando, enfim…

Um deles explicou aos demais que antigamente o Clube 20 era heterossexual e eu concordei com ele, dizendo que de fato eu tinha ido àquele clube quando era NORMAL. A frase saiu tão despretensiosa, que ninguém tinha percebido a gafe que acabara de cometer, exceto o sempre observador Carlos Mourão, o qual fez questão de enfatizar aos demais, o que eu tinha dito.

Eu, de logo, fiquei “roxa” de vergonha, pedindo mil desculpas, as quais foram aceitas, crendo eu pela ingenuidade daquela afirmação e também porque os meninos se revelaram muito bem resolvidos, e acredito que acostumados com essa situação, não se deixaram abalar pelo meu malsinado comentário, e levaram na esportiva.

A comemoração acabou bem, os meninos devem ter ido “esticar a sua noite” e eu retornei à minha casa, refletindo sobre o porquê daquela frase ter saído de minha boca, com tanta normalidade.

E por falar em normalidade, recorri ao Michaelis para traduzir o que seria normal:

nor.mal adj m+f (lat normale) 1 Conforme à norma; regular. 2 Exemplar, modelar. 3 Geom Perpendicular. 4 Geom Diz-se da linha perpendicular à tangente de uma curva. 5 Biol, Psicol, Social. Conforme a um tipo dado e, portanto, presente na generalidade dos casos. 6 Pedag ant Dizia-se da escola e do curso destinados a formar professores de ensino primário. sf Geom A linha normal.

Pois bem, em suma, normal é o que segue o padrão. Entretanto, acho muito arriscado se falar em padrão, quando o assunto é o ser humano…  Na época de nossos avós, o modelo de família era composto por homens casados com mulheres bem mais novas e com muitos filhos, todos extremamente obedientes à vontade do patriarca. Na época de nossos pais, o número de filhos diminuiu e a força do patriarcalismo também. Na nossa época, embora ainda exista um ranço dos modelos anteriores, o cenário é bem mais diversificado.

Em nossos dias, é socialmente aceitável a família de um, a família de amigos, a família de casal e a família “tradicional”, todas elas consideradas absolutamente normais. E nos últimos anos, mais um tipo de família tem procurando ganhar seu espaço, e tem conseguido.

A família homossexual se mostra em nosso cotidiano cada vez mais abundante, deixando a impressão de que são mais numerosos que os heterossexuais. A propósito, Regina Navarro Lins declarou que esse é o futuro da humanidade. E de fato, essa teoria parece cada vez mais real, haja vista que até o Supremo Tribunal Federal tem começado a decidir em favor da nova família.

Diante de todo esse cenário de mudanças, passa a ser inadmissível a propagação de antigas concepções, ainda mais de quem se diz estudiosa como ouso me intitular. E no fundo, percebo que o que julguei de ingenuidade, não passa de conceitos enraizados em meu consciente impostos ao longo da história.  Percebi ainda, a importância do gesto do amigo Carlos Mourão, se ele não tivesse o feito, continuaria achando normal rotular de anormal. Então, um brinde à anormalidade!!!

Gisele Magalhães

Advogada  e leitora do Merece uma dose!.

Anúncios

One comment on “Um brinde à anormalidade.

  1. Gisele Magalhães
    08/06/2011

    eu num disse que ia virar freguesa!!!
    🙂

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 08/06/2011 by in Conversas ao pé do balcão.

Navegação

%d bloggers like this: