Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

E você, pretende casar e ter filhos?

Igreja lotada, convidados à espera, os padrinhos a postos, os pais dos noivos ansiosos e chorosos com seus filhinhos crescendo, crianças correndo e uma meia dúzia de namorados constrangidos com todo o ritual.

Esses mesmos casais começam a se perguntar se aquilo um dia vai lhes acontecer. Na verdade, todos os que não casaram, ficam pensando silentes se eles um dia farão esse mesmo rito. Silêncio.

Começa a cerimônia. Entram os padrinhos e se posicionam no altar. Entra o noivo de braços dados com a mãe. Todos olham, cochicham, risos contidos e falas sussurrantes. De repente, a porta se fecha.

Silêncio novamente.

Ouço o ruído da porta e viro: entram as crianças, tocam-se os sinos, a clássica música do casamento ganha os ares e, depois de todo o atraso previsível, a noiva entra.

Comenta-se sobre seu vestido, se o casamento vai dar certo, se ele é um bom noivo, se ela será uma boa esposa… E os filhos? A quem vão puxar? Cada família espera que puxe mais ao seu menino ou menina.

Então entra o padre. Não só o padre, mas o padre E (maiúsculo mesmo) sua ladainha interminável.

Sabemos se a prosa vai ser curta ou longa só pelas primeiras palavras. Pois bem, eis que o padre já anuncia a primeira leitura: gênesis. Gênesis, minha gente! E fala da criação do mundo, de como Adão deu nome a tudo, da costela e fala, fala, fala… Pronto, daquele ponto em diante já havia abstraído todo o falatório e fico a pensar só em uma coisa: se fosse eu ali?

Percebi que nesses últimos meses fui a alguns casamentos e visto alguns amigos e amigas fazendo planos de uma vida a dois. Umas já estão grávidas, outras noivas, uma rompendo o noivado e outros muitos simplesmente “à procura”.

Ou seja, cheguei a uma fase da vida em que todos os meus amigos se perguntam a mesma coisa: chegou a hora de casar? A resposta se divide em três: não, tá louco?; sim, é meu sonho; ou, como dizem os mais comedidos, não descarto a hipótese, mas não agora.

O fato é que inevitavelmente pensamos.

Ah, e os homossexuais mais do que nunca têm refletido sobre isso, pois o STF garantiu recentemente o reconhecimento de união estável.

Ninguém está a salvo dessa pergunta.

Mas vamos ser sinceros? Pior mesmo são as moças que já ficam em polvorosa com os 30 chegando e sequer estão namorando. O tic-tac e cada assopro nas velas de aniversário são como um passo em direção à sua execução.

A pergunta martela em nossas cabeças: eu vou casar, ter filho, construir um lar, uma carreira e procurar a tal estabilidade mesmo? Quem vai querer isso para todo o sempre e amém?

Juro para vocês, mas eu estou fora. Não acredito em casamento, em alguém que vá suprir minhas carências e necessidades.

Sobre ter filhos posso até cogitar em ter, inclusive já escolhi gênero, nome e até agora só pensaria em tê-lo com uma pessoa: Maria Gabriela. A criança seria uma linda moça chamada Maria Flor. Mas aí sempre lembro de uma frase: “é preciso ter uma concepção muito boa sobre si para querer reproduzir”.

Verdade. A pobre da criança vai ser vítima das minhas frustrações e desejos reprimidos. Vai incorporar todas as minhas chatices, manias e loucuras… Além disso, vai achar que sou um super herói quando criança para depois sofrer de uma decepção inevitável e necessária na adolescência percebendo que seu pai é um careta metido a revolucionário com conceitos já superados.

E o pior: ainda vai debochar de mim e se julgar mais inteligente e mais antenado nos últimos acontecimentos do mundo hipermoderno. Serei necessariamente ultrapassado.

É, talvez esteja exagerando, mas a verdade é que isso é uma grande responsabilidade e tem o mesmo fundamento inicial do casamento: a obrigação de ser para sempre.

Como posso eu hoje garantir que amarei alguém para sempre ou cuidarei de um outro ser humano nesse mesmo sempre? Palavras por demais pesadas para planos de vida leve e efêmero.

Casar, além dessa impossibilidade inata de manter o que fora ali prometido, soa-me como uma tentativa de anular uma das vidas ou as duas para serem apenas uma.

Os românticos acreditam piamente nisso e ainda acham poético: duas vidas vão virar uma só.

Balela. No amor ou se divide ou multiplica, subtrair jamais.

Mas há quem acredite. O amor é cheio de formas e fôrmas. Cada um busca a sua e o seu para construir seu estilo de vida.

Eu? Não, não quero seguir esse ritual secular ou perpetuar modelos de família. Acredito no amor, mas no amor livre.

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2 comments on “E você, pretende casar e ter filhos?

  1. Glauver Souza
    08/02/2011

    Olha, nem concordo com tudo nem discordo com tudo… na verdade passei boa parte do meu dia pensando nesse texto! acho que esse lance de casamento, para sempre é complicado mesmo, mas se fosse fácil não tería graça… mas o que mais bateu é o lance do para sempre, ah pô nem eu vou viver para sempre eu la vou ter como amar ou dividir uma vida para sempre… acho que o buraco é mais embaixo, creio q o importante é amar enquanto se estar junto, tornar o para sempre naquele frase do Soneto de Fidelidade de Vinicius “Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.” e bem filhos, pretendo ter dois, um casal e ser feliz com eles! =p (acho que o coment ficou grande)

  2. Leonísia Fernandes
    08/02/2011

    se não for pra dar o golpe do baú, juro que não entendo a fábrica do casamento.

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This entry was posted on 08/01/2011 by in Conversas ao pé do balcão.

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