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Podem vibrar, Amy Winehouse está morta.

No sábado pela tarde, quando acordei ainda ressaqueado, liguei o notebook e a notícia rasgou a tarde: Amy estava morta. Fui checar a veracidade da informação, pois agora inventamos o triste hábito de matar as pessoas pelas redes sociais.

Sim, era verdade. Estava mesmo morta. E o pior: aquilo tão recente já não era mais novidade.

Até o momento não se sabe qual a razão da morte da cantora, mas todos os peritos de internet já deram antecipadamente seus laudos: overdose.

Alguém pensou se poderia ter outra razão para a sua morte? Não, não pensamos. Ao contrário, a cobertura midiática de sua morte só deu ênfase a um fato: mais uma cantora talentosa vítima das drogas. E aos 27 anos, triste sincronicidade para os moralistas encherem os pulmões e bradarem uma lista com as mesmas fatalidades.

Ultimamente, a voz mais promissora do soul chamava mais atenção pelos seus escândalos, erros e desleixos do que pelo seu talento. Não queriam mais saber se ela resgatava o estilo das vozes do jazz estadunidense, tais como Billie Holiday ou Ella Fitzgerald, mas tão-somente quando se daria o próximo deslize.

A cada queda no palco a urubuzada vibrava. Toda vez que esquecia a letra de uma música faziam questão de vaiar. Correntes se formavam na internet especulando quando seria a morte da cantora.

Chegou-se ao cúmulo de criar um site chamado When will Amy Winehouse die?, no qual as pessoas faziam apostas sobre qual seria a data de sua morte. O prêmio para o necrófilo seria um iPod touch.

Piadinhas sobre a sua decadência física deram a tônica para a sociedade conservadora impor a sua moral. Olhavam para ela e já agouravam a inglesa. Desejavam ensandecidos que sua morte fosse logo anunciada.

E foi. Não se sabe a causa mortis, mas todos garantem: fora tragada pela combinação letal entre álcool e drogas.

Um tablóide inglês informou que ela foi vista na última sexta-feira comprando uma grande quantidade de cocaína. (Insinuação sobre um possível suicídio?).

Não vou dar uma de psicanalista e especular sobre uma tendência autodestrutiva que ela possa eventualmente ter, mas me preocupa muito como a morte dela é noticiada e as opiniões nas redes sociais sobre isso.

Fala-se unicamente que ela era uma drogada, mas não se discute o problema central: por que as pessoas se drogam e como enfrentar isso? Proibir, criminalizar e prender quem usa não me parece a maneira mais eficaz, pois só abrangeria a sua consequência.

A origem da necessidade do uso de tais substâncias está ligada a uma sociedade também doente. A mesma sociedade que vibrava com a decadência dela e parecia saciada com seus fracassos. Sociedade esta composta de indivíduos que riam com as fotos em que ela aparece sem dente, magra, suja e bêbada.

Grandes nomes da música, assim como muitas pessoas que (não) conhecemos morre(ra)m em decorrência do mau uso de tais substâncias e mesmo assim ainda não se discute a implementação de uma política voltada para a redução de danos.

Ainda insistimos na política da proibição e de criminalização dos usuários. Essa mesma política que se mantém para alimentar a economia e a rede de corrupção do tráfico.

A morte da cantora, por sua vez, será utilizada pelos setores conservadores da sociedade para legitimar seu discurso antidrogas e a deturpação da sua imagem servirá para que os jovens não fujam a um modelo de comportamento pretendido.

Como o uso de drogas e álcool por uma pessoa que tem autonomia sobre o seu próprio corpo pode incomodar tanto os outros a ponto de desejarem e esperarem sua morte?

A moral cristã, branca, heterossexista e classista molda a gente mais do que percebemos. E ela utiliza as instituições e grandes meios de comunicação para nos impor uma conduta.

Todo o circo armado e as inúmeras notícias sobre sua morte é só para dizer a mesma coisa: não sejam iguais a essa moça. Comportem-se. Cuidem-se. Obedeçam-nos. Do contrário, terão o mesmo destino que ela.

Os moralistas já podem comemorar, a imprensa parasitar a defunta e todos os outros conservadores começarem seus discursos sobre um modelo de vida equilibrado e feliz, pois Amy Winehouse está morta.

            Carlos Mourão.

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4 comments on “Podem vibrar, Amy Winehouse está morta.

  1. Muita gente esquece que a vida pessoal dela não era um sucesso, mas são poucos que lembram que seus ídolos ainda eram seres humanos. Você lembrou; e espero que outros, ao lerem o texto, procurem compreender amplamente a morte desta talentosa cantora.

  2. Enos Moura
    07/28/2011

    Tens razão, a sociedade estar doente, mas essa doença nunca deixará de existir porque alimenta os anceios daqueles que não conseguem enchergar o verdadeiro sentido de existencia do ser humano, que é a busca da felicidade que na maioria das vezes é simples como um aperto de mão, quando sincero.A questão é: onde reina a sinceridade, a fraternidade e o respeito? nas leis? na religião? duvido.

    Enos Moura

  3. Leonísia Fernandes
    08/02/2011

    o fato é que os tais maliciosos tablóides ajudaram-na a estourar pelo mundo e vejo milhões querendo ser igual à tal cantora, concordo com seu ponto de vista, mas não sei se tudo é preto no branco… “falem mal, mas falem de mim”…

  4. carlos wendel
    08/05/2011

    Amy Winehouse foi mais uma vítima das drogas.
    E esse fato, será discutido pela sociedade como realmente deveria ser?
    R: No, no, no.

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This entry was posted on 07/25/2011 by in Conversas ao pé do balcão and tagged .

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