Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

O cotidiano é míope.

Autor: Carolina Rodrigues

A distância nos aproxima do que verdadeiramente importa. E o que importa é tão sutil, tão invisivelmente simples, que se muitas vezes colocado diante dos nossos olhos, desapercebemos. A hipermiopia, neste caso, se faz necessária.

Em mais ou menos um mês verei um dos mais importantes partir. Ou melhor, irá decolar. No mais amplo sentido do termo. E sei que vai doer, pois com certa delicadeza, já dói. A vida por um ano terá outra consistência, outra forma, e o céu cinzento que avisa da chuva, não mais me aparecerá como em sua companhia: nosso mundo ideal.

Distanciar-se de quem se ama é tão difícil quanto a própria convivência. Ninguém está preparado. Porém, a angústia da despedida tem suas vantagens. Nos dias que a antecedem, o inaudível torna-se estridente, os odores mais simples exalam parfum français, você se pega tentando enxergar o que a proximidade de alguns centímetros e 18 meses não permitiu e a afetividade está presente nos mínimos gestos. Esconde-se o desconforto, coloca-se o orgulho de lado, engole-se o nó na garganta, disfarçar-se o aperto no peito, enxugam-se as lágrimas que insistem em cair nos momentos mais inoportunos, a noite perde a sua beleza quando a vemos apenas como o fim de mais um dia – um dia a menos, tenta-se recordar do que ainda não foi dito, pra dizer pessoalmente, olhando nos olhos. Ouvem-se e falam-se coisas que em dias triviais, talvez, cairiam no mais puro pieguismo. E quando não há mais o que dizer, o silêncio é preenchido com sorrisos, afagos e carinhos.

Nos últimos dias uso meus sentidos como uma Polaroid. Toda imagem dele é gravada instantaneamente em minha memória. Mas o cheiro, o cheiro do último banho do dia, do perfume usado ao sair, da fumaça de cigarro enquanto bebe café, da comida dos fins de semana, das roupas deixadas displicentemente pela casa, do suor natural de quem vive numa cidade quente, é mais difícil, em longo prazo, de se guardar: não há registros, só lembranças. Conviver com a ausência dói. Mas dói menos quando se tem o que lembrar.

Neste momento, à distância, vejo mais claramente o prazer dos doces desencontros, das esporádicas discussões, da leveza do nosso relacionamento, das idas ao cinema, das risadas, da preguiça, da gula, da embriaguez, do não fazer nada. É preciso um certo distanciamento pra enxergar a riqueza de algumas coisas.

Mas após o “até daqui pouco”, a despedida, a saída do salão de embarque, o último aceno, a última imagem, as primeiras horas e os primeiros dias, apaga-se o desconforto da despedida e alegra-se com as novas notícias enviadas por e-mail, as fotos enviadas de Paris, a espera da próxima carta e o som da voz via computador ou telefone. A vida segue até o próximo reencontro.

A distância geográfica produz aqui e ali uma mistura muito peculiar de sentimentos. Entre partidas e chegadas , o medo do que está por vir, resultante da ausência de quem se gosta, é comparável ao medo da própria existência. Mas de doce, já basta o primeiro gole de uma taça de vinho.

Eleven a.m. - Edward Hopper, 1962.


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2 comments on “O cotidiano é míope.

  1. Nádia
    07/20/2011

    4º parágrafo: muito bonito.

  2. Lucas Vieira
    07/21/2011

    simples e bonito isso.

    lembrei de drummond:

    Por muito tempo achei que a ausência é falta.
    E lastimava, ignorante, a falta.
    Hoje não a lastimo.
    Não há falta na ausência.
    A ausência é um estar em mim.
    E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
    que rio e danço e invento exclamações alegres,
    porque a ausência, essa ausência assimilada,
    ninguém a rouba mais de mim.

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This entry was posted on 07/20/2011 by in Filosofia de bar and tagged .

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