Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Pensamentos de estimação.

Dizem que os velhos criam mais hábitos e manias do que os de menos idade. E ao passo que envelheço constato que isso é verdade.

Os anos vão se passando e a gente vai se agarrando a coisas mais específicas, vai afunilando as vontades, vai conhecendo mais os nossos prazeres e já não fica mais lendo, vendo, ouvindo e sentindo tudo. Os caminhos parecem mais claros.

Vamos ficando, talvez, mais fiéis a nós mesmos.

Conversando no último sábado com meu pai sobre isso, ele me perguntou algo interessante: quais são os teus pensamentos de estimação?

Percebi, então, que mesmo que eu continue vivo por mais cinquenta anos deveria preservar algo sempre ali comigo. Mas qual esse algo sem ser essencialista?

Deduzi logo que deveria ser algo que me desse prazer. O prazer me parece mesmo o único caminho para se chegar à felicidade. (Fazer algo sem qualquer tipo de prazer é, para mim, inimaginável. Não tenho vocação para santo).

Então, resolvi definir quais são meus pensamentos de estimação, mas não vou contar agora. Vou falar de outros tipos: a minha voz de estimação, meu autor, o estilo musical e qual a minha cor de estimação.

Refleti sem muitos esforços sobre quais seriam e descobri quase que automaticamente que já os tinha, mas ainda não eram definidos como de estimação. Quer saber quais são?

A minha voz de estimação, claro, é da Maria Bethânia. Ela carrega em si toda a força do nordeste e da mulher. As palavras respeitam sua voz, pois saem de maneira completamente destemida e como se fossem ditas pela primeira vez.

Tudo o que ela canta e fala sempre me soam como algo completamente novo. Só ela sabe perceber a maneira de dizer aquilo como se fosse a vida da própria palavra.

Como ela possui um repertório vasto, com mais de 50 discos/cd’s/dvd’s, e sempre teve o cuidado de nunca gravar algo efêmero só por modinha, escolhi, pois, como minha voz de estimação.

Meu autor de estimação disse que ela é a padroeira dos apaixonados. Mais uma vez ele está certo. E quem mais poderia ser ele?

Ora, como detesto coisas amenas e sou muito ligado á vida da cidade, não poderia deixar de ficar ao seu lado: Caio Fernando Abreu.

Tenho uma relação de completa identidade com o conteúdo da sua obra, pois Caio F. sempre foi pessoa errante, passional, mística (astrólogo e frequentador de candomblé), impulsiva, intuitiva e dedicou-se fervorosamente ao seu ofício de escritor.

Fala das angústias da cidade como se fosse o paciente no divã e o próprio analista. Nunca hesitou em colocar o dedo na garganta para vomitar o eterno gosto de morangos mofados que sentia em sua boca. É, por isso, meu de estimação também.

Já como estilo musical, o samba me traduz bem. Ele vem do morro, da periferia, do negro e é um ritmo nosso. Ele é a batida do Brasil que criei para mim.

O samba guarda em si toda a história dessa terra e cada instrumento é a voz que vem me contar do Brasil. Quem quiser saber o segredo daqui tem que ouvi-lo.

E para encerrar minha estimada coleção intocável, escolho a cor azul. Não sei desde quando ela já estava em mim, mas lembro que desde criança era a cor que me definia. Se fosse uma cor seria ela. Quem sabe num tom mais escuro, mas mesmo assim um bonito azul.

Tudo isso é algo que não posso materializar e colocar como enfeite na minha casa, mas que estão mais comigo do que sabia. A música e a literatura tornaram-se a religião da minha casa.

Mas me conta de ti. Qual a tua voz de estimação? Qual o teu autor, o teu ritmo e a tua cor? O que você quer guardar em você mesmo?

Uma dose aos nossos pensamentos de estimação!

Carlos Mourão.


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This entry was posted on 07/18/2011 by in Conversas ao pé do balcão.

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