Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

DOS PRAZERES ATACADOS:

DOS PRAZERES ATACADOS:

A FUMAÇA DO CIGARRO BORBOLETEIA NOS MEUS PULMÕES

Quando você vir alguém fumar não se engane: aquela pessoa não fuma, ela tenta parar de fumar. Desde que comecei a fumar tenho planos de deixar o cigarro. Nunca foi nem vai ser fácil. Aquelas pessoas que largam de uma vez, como se nunca tivesse havido nenhum laço ontológico entre elas e o cigarro, me são suspeitas: continuo a acreditar que para sempre elas carregarão esse vazio existencial deixado pela falta de fumaça nos pulmões.

Aqueles mais cultos, versados na arte de procurar os motivos profundos que é a psicanálise (motivos que, aparentemente, só os outros são capazes de ver, jamais nós mesmos), sempre perguntarão o que nos leva a fumar. Daí o absurdo de dizer que é uma fixação oral (freudianismo barato), ou então que é um paliativo para a ansiedade (e esta, por sua vez, só seria resolvida com análise ou uma dose de estoicismo, quiçá algum ansiolítico, como costuma prescrever sem receita uma amiga cuja família tem uma farmácia há mais de 90 anos e que conhece antidepressivos como nenhum psiquiatra).

Mas a verdade é que nenhum fumante desertor ou um não-fumante jamais entenderá o vínculo poético que existe com o cigarro: ele soluciona, antes de qualquer coisa, o milenar problema das mãos vazias.

A quem diga que o maior incômodo do ser humano é saber onde colocar as mãos, daí o motivo de termos inventado tantos objetos. Os bolsos são coisas ultrapassadas, os livros pesam… Apenas o cigarro, leve como uma folha, tem o poder de ocupar as mãos com tanta eficiência.

O cigarro é pura transcendência: ele vai das mãos à boca e aos pulmões. Ele percorre o sistema circulatório e termina injetando no cérebro uma descarga tímida de prazer. Por esse motivo o cigarro é grande: o prazer dele é tão imperceptível aos olhos alheios que se torna uma espécie de prazer íntimo, somente reconhecível por você e pelos seus pares fumantes.

Quase todas as pessoas que não fumam já tiveram um orgasmo, comeram um chocolate ou beberam uma cerveja bem gelada, por exemplo, mas eles sempre serão alienados do prazer de fumar porque não entenderam a natureza deste prazer.

Diferente dos prazeres citados, que nos atingem desde a primeiríssima vez, o cigarro guarda a particularidade de ser um prazer que requer esforço: todos os que começaram a fumar detestaram a língua formigando, o cheiro de merda de gato e carvão que fica nos dedos, o leve enjoo e a dorzinha de cabeça que nos faz crer que esse hábito não é para nós. Mas é aí que vem a surpresa: nos pegamos repetindo o mesmo ato de tragar a fumaça e esperar que algo qualquer aconteça. Então acontece.

(Pausa para acender um cigarro).

O cigarro é sem dúvida o mais misterioso dos prazeres: ele não alimenta, não diminui nossa inibição, não nos leva a ver um smurf azul comendo cogumelos vermelhos (ou, para citar o exemplo da lombra de uma colega chegada ao LSD, não nos faz ver a Rita Lee no nosso banheiro), nem muito menos nos faz ejacular. Ele é sóbrio: só se sabe que alguém fumou pelo cheiro da fumaça. Diferentemente da bebida, que é, via de regra, um prazer social, o cigarro é individualista: ele prefere o tête-à-tête.

Depois que se conhece o mistério desse prazer dificilmente ele é abandonado. O cigarro preenche o vazio de muitas horas. Arrisco-me a dizer que, mais do que o ponteiro dos relógios, é o cigarro o grande marcador do tempo.

Mas se o cigarro é esse prazer tão delicado, fruto do esforço incomum aos outros prazeres, por que eu disse que não se fuma, mas se tenta deixar de fumar?

Há algumas décadas o cigarro tem sofrido uma campanha maciça por parte dos defensores de uma vida saudável. Todos nós sabemos o número impressionante de mortes causadas por anos de tragadas: o cigarro foi responsável por mais mortes durante o século XX do que todas as guerras e conflitos armados combinados. Esse e outros motivos têm engrossado o caldo em que se quer cozinhar os fumantes.

Portanto, esse prazer delicado que é o cigarro (ah se eles entendessem que um cigarro acompanhado de uma xícara de café forte pela manhã é a melhor maneira de se começar o dia!) foi transformado no mais nocivo vício social: o fumante é visto como alguém desprovido de qualquer força de vontade.

Mas se há de convir nisto: é preciso muita força de vontade para seguir tentando parar de fumar por mais de 30 anos…

(Pausa para apagar o cigarro).

Essa espécie de ser humano sem vícios que está em vias de se estabelecer é uma fraude das mais escandalosas: se formos seguir todos os conselhos que vemos na televisão, na internet ou em qualquer outro meio de comunicação em que a voz do “bom senso” é maioria, nós vamos extinguir aos poucos os prazeres. “Joguem fora os carboidratos, abandonem o álcool, ocupem as horas vagas com atividades físicas, frequentem regularmente o psicanalista, e nunca, por hipótese alguma, fumem!”.

O pior de tudo é que aqueles que se tornaram seres humanos sem vícios não sabem que foram possuídos pelo vício de doutrinar. “Para de fumar! Tu sabe que só te faz mal!”, diz um membro dessa espécie. E então se segue um verdadeiro sermão da montanha.

Trago profundamente, como se inspirasse um pedaço da alma do mundo e espero que suas palavras acabem logo. Jamais atenderei ao seu pedido, penso, precisamente porque ele nunca entenderá o prazer delicado de fumar. Inspiro a fumaça e sinto mil asas de borboletas em meus pulmões. Poderia lhe explicar o que significa cultivar um prazer tão mal visto, mas vencer a alienação é uma batalha árdua que não estou disposto a fazer. Simplesmente porque não quero interromper meu tête-à-tête especial.

Yuri Mourão.

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4 comments on “DOS PRAZERES ATACADOS:

  1. Nádia
    07/06/2011

    “o fumante é visto como alguém desprovido de qualquer força de vontade.”
    Nossa….

  2. Leonisia F.
    07/06/2011

    rapaz, vc só se esqueceu de incluir o pobre do fumante passivo que não sente borboleta nos pulmões, mas um hipopótamo sentado na cabeça e uma urtiga no nariz. mimimi

  3. Leonisia F.
    07/06/2011

    ah, e eu quase ia esquecendo do porco espinho fazendo ginástica olípica na garganta!

  4. Silas Falcão
    07/07/2011

    Yuri, este texto está bem escrito. E, somente por isso, ele merece uma dose.

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This entry was posted on 07/06/2011 by in Conversas ao pé do balcão, Filosofia de bar.

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