Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Só um cachorro e um amor, por favor.

Autor: Carolina Rodrigues

Desde que me entendo por gente (leia-se: 15 anos), duas das principais afirmativas recorrentes eram: “não irei casar” e “não terei filhos”. O que mais ouvia como resposta ou crítica de familiares e amigos a esta decisão era:

“Você diz isso agora, quando crescer sua opinião irá mudar.”

“Se todos pensassem dessa forma, como ficaria a perpetuação da espécie?”

“Se não for pra casar e ter filhos, Carolina, para que namorar?” (Argumento da minha mãe dizendo sutilmente que era contra os meus namoros).

“Vai envelhecer sozinha?”

Aos quinze anos, no auge da minha imaturidade e rebeldia sem causa nem meta, tal escolha era baseada na superficial observação que fazia das mulheres participantes da minha vida. Reflexo de uma sociedade machista e patriarcal. Não queria nada daquilo pra mim.

Não queria ter que passar a vida ao lado da mesma pessoa, sabendo que enjoava do meu namorado num mero fim de semana. Não queria ter que me privar de certos prazeres para ter que cuidar de crianças. Nunca sonhei com o pacote que naquele tempo, aos meus olhos, era o destino da maioria das mulheres: terminar a faculdade – casar – ter filhos – e ter duas vidas paralelas: dona de casa e profissional.

Até hoje não sei ao certo o que quero, mas continuo não querendo nada disso. Onze anos se passaram e eis-me aqui com a mesma decisão. Embora haja substituições.

Nos últimos meses recebi um bombardeio de notícias de casamentos e gravidez de amigos. E justamente estes mesmos amigos que sempre ouviram minhas ladainhas a respeito de uma “família ideal”, ainda hoje custam a acreditar que continuo com esta opinião. Continuo, ao menos em parte.

Justifico.

Hoje consigo me imaginar facilmente aos 80 anos com a mesma pessoa que estou agora. Mas, preferencialmente, não dividindo os mesmos cômodos. Ao contrário disso, nunca me vi mãe. Tia, prima, madrinha, seja lá o que for, sim. Mãe não. Claro que há quem se julgue melhor e mais evoluída do que eu por ser mãe; que há quem ouse dizer que a mulher só se realiza após a maternidade; que só após o amor maternal saberemos o que é amor de verdade. E outras tantas falácias. Mas cá pra nós, nunca desejei evolução espiritual, uma total realização de gênero, e o amor que já conheço e tenho, para mim é suficientemente bom, satisfatório e, às vezes, até problemático demais.

Adoro crianças, mas as dos outros. Não quero me impor uma responsabilidade que sei que em longo prazo não poderei arcar. Sem falar que filhos são caros, trabalhosos, muitas vezes frustrantes e ingratos. Você não pode simplesmente ir lá e devolver. Terá que ficar com ele, obedecendo a uma média cronológica, por no mínimo uns 50 anos. Para que correr o risco, né verdade?

Com base nisso, chego ao ponto que queria: cachorros.

A crítica mais contundente e recorrente que todos que dividem a mesma opinião que a minha (antes cachorro que crianças) ouve por aí, resume-se em expressões do tipo: “em vez de ter filhos ficam preocupando-se com cachorros”. Sem entrar ainda no mérito da questão, ou quem sabe até entrando, é preciso ressaltar que cada pessoa tem o livre arbítrio para dispor do seu tempo, seus recursos e sua vida naquilo que melhor lhe convém.

Afirmei que crianças são caras e trabalhosas, cachorros tais quais o são. Se bem criados, lógico. Mas os gastos diferem, são em menor escala e dentro de um prazo bem mais curto. Se seu cachorro tiver tendência suicida, como intoxicar-se com plantas, comer veneno, jogar-se escada a baixo ou tentar enforcamento com o punho da rede, o valor pode aumentar.

Porém, garanto que tais gastos compensam.  Vide Herta Schweitzer Dahrendorf. Uma dachshund preta, linda e gorda, que nos acorda com lambidas no rosto, faz xixi como demonstração de alegria ao nos ver chegar e come borboletas como simbologia poética.

Sim, prefiro cachorros a filhos.

Do ponto de vista filosófico, estabelecer que uma espécie tenha maior ou menor importância que outra é uma questão relativa que resulta em juízo de valor. A imposição a outrem de valores individuais soa como intromissão, arrogância e prepotência.

Portanto, meus caros amigos, não faço apologia ao celibato, infanticídio ou coisa parecida. Repito: crianças são umas lindas, mas cada qual com seus respectivos pais.

Às mulheres, em especial minhas amigas, meus sinceros desejos que se satisfaçam com seus casamentos oficiais, filhos bem criados e família feliz.

Enquanto isso, cultivo meus anseios (agora perenes) de Paris, Yuri, viagens, cachorros, cultura, livros, música e, claro, uma dose de um bom vinho francês qualquer. 

Carolina Rodrigues

Enquanto escrevia,

ouvi: Kate Nash, Florence, Dylan e Maria Bethânia;

vi: as cinzas e fumaça do cigarro do Yuri Mourão, e admirava o sono ingênuo da Herta;

 e bebi: Vinho Saint Germain.


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2 comments on “Só um cachorro e um amor, por favor.

  1. kamila
    07/05/2011

    Não penso de todo igual a você, mas independente de qualquer situação o que importa no final é o meio que encontramos para concretizar nossas realizações (ou ao menos tentar encontrá-las), não devemos nos prender a tradições e segui-las sem ao menos nos questionarmos, ninguém deve ser tão alienado a esse ponto… Sim, adorei o texto, muito divertido e inteligente.. bjinhos /mila

  2. Felipe
    07/08/2011

    Gostei do texto, mocinha. Não sou adepto a cães, mas vaale-se viver como nos convém.
    Vou aparecer mais por aqui pra te ver (ler).

    Bjs.

    Felipe.

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This entry was posted on 07/04/2011 by in Conversas ao pé do balcão.

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