Merece uma dose!

Merece uma dose! é como uma mesa de bar.

Do problema da palavra.

Quem se compromete a contribuir com um blog tem que escrever ao menos um texto por semana, mas já me deparei com uma crise pós-moderna: qual assunto tratar de maneira isolada?

Passei a semana toda tentando escolher um tema para escrever e quanto mais pensava, mais via como determinados assuntos são conectados com outros e que não poderia falar de algo sem me referir a um outro algo. Um verdadeiro castelo de cartas.

Quanto mais ficava na angústia de escolher o assunto, mais percebia o que guardam as palavras (seus significados e significantes). Comecei a catá-las, como se feijão fossem. Só então percebi que elas trazem consigo toda uma história oculta que só a filologia poderia dar indícios de suas origens.

Como um som emitido, captado e decodificado por outro se torna língua e como esse sistema se torna o principal meio de percepção de um ser humano? Essa mesma linguagem vai ser a janela em que nos encostamos para olhar o nosso mundo.

Cada um olhando o seu mundo a partir de suas janelas é a fonte da minha breve crise pós-moderna. Na verdade, a origem dela (a breve crise) está em um fato paralelo a todo o sistema cognitivo e à construção da língua materna, pois o que me incomoda é nunca ter compreendido a vida das palavras.

O que elas trazem em si além do que a gente associa a elas? Será que demos nome a tudo aquilo que existe/conhecemos? E aquilo que não se expressa em palavras como pode ser dito e compreendido?

O poeta, em seu ofício de enfeitar palavras, quando não encontra uma correspondente àquele sentimento vasto, vale-se da metáfora ou da sinestesia. Ambas me parecem, pois, uma tentativa de se dizer aquilo que não tem nome, de batizar o vazio. É reinventar a linguagem para criar algo novo com o que já se tem (mas sem fugir dela). Elas mesmas me dão indícios da insuficiência da linguagem quando se trata de descrever sentimentos mais profundos. São recursos últimos para tentar expressar algo que foge às palavras.

Manoel de Barros, no Livro das Ignoranças, criou uma linda sinestesia que resume bem a ideia: “Escuto a cor dos peixes”. Fora da figura de linguagem é totalmente impossível essa frase ter lógica e comunicar algo.

Deparo-me, então, com algo central do que me inquieta: a necessidade de inventarmos uma nova maneira de comunicação. Se paciência tivesse, criaria a teoria dos sistemas binários de comunicação. Vou brincar de explicar seu possível conteúdo.

Nossa sociedade capitalista-pós-moderna-mecanicizada-líquida-e-veloz segue o ritmo dos computadores (ou máquina, se preferir). Esse, por sua vez, só entende e funciona com base no sistema binário: 1 e 0 para decodificar e comunicar.

Acabamos reproduzindo isso no cotidiano sem sequer percebermos. Por exemplo, o direito só entende duas linguagens: o lícito e o ilícito. Criam-se teses e mais teses sobre ele, mas, no fundo, servem de fundamento para justificar essas duas linguagens primárias.

O ser humano também “opera” a partir de sistemas binários: sim e não, certo e errado, justo e injusto, melhor e pior, dentre outras coisas. (Seria, na verdade, a eterna dualidade do mundo?). Sei que tudo isso que estou fazendo é uma análise superficial, mas volto a dizer o que me incomoda: a vida secreta das palavras. Onde estava eu quando lhes deram vida?

Carrego em mim uma língua materna, porém desconheço a sua história. Sou um mero repetidor das palavras, assim como os comportamentos. Até meu corpo guarda memórias do meu comportamento quando gesticulo sem que eu mesmo perceba quais os gestos que mais repito.

Por outro lado, como se expressar fora de um sistema de linguagem? Pode-se conhecer outros sistemas, como faço com o inglês e com o francês, mas somente me expresso com aquilo que me foi dado. Tentar se comunicar fora deles é padecer nos limites invisíveis que nos rodeiam ou ser taxado de louco. (Talvez a arte consiga esticar mais esse limite).

De toda forma, percebo a força das palavras e de como elas guardam em si mais do que aquilo que podemos repetir. Quais palavras que você mais usa? Elas revelam o teu mundo? O que as palavras que você diz dizem sobre você?

Para encurtar logo nossa prosa nessa mesa, recordo de um sonho que tive sobre as palavras. A voz me dizia isso:

“Às vezes, dá vontade de fazer um colar com as palavras. Cada nome seria uma missanga e cada missanga seria como uma reza forte contra o tempo, a favor do tempo e além do tempo, pois não moramos em outro lugar que não ele. Os nomes que colocamos no cordão são nossa defesa nesse existir. Toda vez que evocarmos um desses nomes, devemos fazer como quem roga uma proteção aos céus. Cuida com os nomes que tu usa nesse colar e não empresta tua voz a qualquer missanga”.

Um brinde à vida secreta das palavras!

   Carlos Mourão.

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This entry was posted on 06/27/2011 by in Filosofia de bar and tagged .

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