“Amar já é um protesto”

Num desses dias de muito peso, quando abro meu e-mail há um vídeo enviado pelo Carlos Mourão. Era ele a música “Carta de Amor”, claro, da dona Bethânia. Ele também me enviou um outro que, sinceramente, nem lembro qual, pois essa carta me remeteu tanto consolo e sentimentos bons que a fiquei ouvindo sem parar deitada entre o chão e o escuro do quarto.

Mas quando eu escuto uma música, dificilmente consigo abarcar a letra. Não sei o que é, mas primeiro tenho de me deixar abarcar pela melodia, pela voz, pelo instrumento, pelo som puro e seco. Posso tentar, mas não consigo decifrar a letra, é como se fosse mesmo um idioma desconhecido. Quando já estou familiarizada com a vibração da música é que começo a traduzir a letra para o meu coração. Esse é o meu toque. É assim que eu sou tocada.

Confesso que ainda não traduzi bem a letra de “Carta de Amor”, mas as palmas e o violar me velejam as águas do sentir. Mas bem distingo importantes palavras: Zumbi, rainha do mar, Oxum, o Santo, o diabo. E claro: “Não mexe comigo que eu não ando só”. A letra é todinha dela. Dessa mulher louca que, dando um grande dane-se à posteridade, escreve e queima as letras de seu punho alegando que se purifica. Me pergunto pra aonde vão essas cinzas de palavras. Eu mesma já queimei algumas, mas eram desejos de ano novo. Não, não me dei com palavras ao vento. Prefiro as que se acasalam entre os meus cadernos.

Porém, essa carta de amor ela não queimou. Escreveu para recuperar a sanidade que o susto leva, para retomar as rédeas dos sentimentos e ideias e, mais que tudo, para se proteger. E vocês lembram do episódio do blog dela, claro. Em que ela receberia R$ 1,3 milhão do Ministério da Cultura para o projeto “O mundo precisa de poesia” em que seriam postados 365 vídeos, um para cada dia do ano, com Bethânia declamando poesias e todas essas coisas que ela bem sabe fazer.

Fato que causou reações indignadas e explosivas de internautas que propagaram expressões de vexação, ironia e ódio à Cantora. Mais perspicaz seria se, antes de reuitarem e compartilharem qualquer coisa que veem pela frente, os internautas tivessem se informado de como se daria isso tudo.

Bethânia não receberia dinheiro público para alimentar seu blog. A Lei Rouanet, nº 8. 313/91, permite que parte do Imposto de Renda devido de pessoas físicas e jurídicas seja aplicado em ações de cultura nacional. Sabe essas mesmas empresas e empresários que lucram se apropriando de graça de parte do trabalho do empregado (é, a tal da mais valia) e te fazendo consumir artefatos que você não precisa e que vão dar defeito rapidinho? (é, a tal da obsolescência programada). Pois é, essa gente bacana, com a qual você não se indigna nem compartilha ou retuita nada sobre como elas nadam em dinheiro injustamente, ia permitir algo interessante pra variar.

Mas bem, Bethânia desistiu do projeto e, em meio ao turbilhão de mensagens ruins que carregavam o seu nome a nível nacional, escreve essa carta de amor. Carta de amor a si mesma. Um amor que não é sempre manso, que se opõe, que encara o rancor, a mágoa e que se eleva, que se sobressai, que pulsa e irradia e vai correr para onde há mais de amor.

Concordo com Maria Bethânia, o que mais vejo nesse mundo é gente cujos

ouvidos se fecharam a qualquer música, qualquer som, nem o
bem nem o mal, pensam em ti, ninguém te escolhe você pisa na terra, mas não sente apenas pisa, apenas vaga sobre o planeta, já nem ouve as teclas do teu piano, você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona”.

E a essa gente, por amor a mim, aos meus, aos próximos, ao povo e às minorias, eu brado:

eu não provo do teu féu, eu não piso no teu chão e pra onde você for não leva o meu nome não”.

E quando a gente escolhe o que se ama, a gente escolhe também o que não se ama. Assim como escolhe as armas para proteger esse amor. E de uma coisa eu sei: esse amor que brota do ventre dessa terra seca e órfã, que é o sertão, é milagre de fecundação e não é pouca coisa que o desmantela e o faz titubear. Mas é muita coisa que esse amor provoca, mais amor e até mais ódio.

Hoje, vou dizer não mexe com Bethânia, não mexe com a poesia, não mexe com o Nordeste, pois eles mexem comigo. E não estamos sós, estamos é cercado de sóis de janeiro a janeiro, de história, de resistência, de orixás, de santos, compositores, erês, pexeiras, enxadas, canções, cordéis, oásis, cartas, amor e cartas de amor. Epahei!

Leonísia F.

Até que nem tanto esotérico assim…

Só quando comecei a morar só foi que percebi que trazia comigo uma carga de misticismo muito forte, mas pensava que nem tanto esotérico assim. Logo quando fui abrindo minhas caixas na mudança, em 2010, foi que olhei meu quarto (pela primeira vez tinha um quarto só meu) e percebi que tinham algumas imagens de seres místicos/divinos decorando o ambiente.

Parei por alguns segundos e me perguntei quando foi que aquilo começou, quando que tinha começado a falar do meu ser esotérico pelos objetos e símbolos antes mesmo de trazer à minha consciência.

Também misticamente percebi que já estava formado uma espécie de altar bem ali no meu quarto, onde meu corpo repousava. E o mais curioso foi que esses objetos que o decoravam inicialmente, todos, sem exceção, eram presentes. Presentes para um ateu!

Luziê nasceu do tempo/ Mãe do vento lhe deu asa/ Ê, volta do mundo/ Onde chega está em casa.

A partir daquilo, desatei os nós do preconceito e comecei a fazer pequenos rituais, mas ainda bem acanhado, pois sempre tinha alguém na casa e isso não me deixava à vontade de andar por ela com incenso, limpando as energias, ou mesmo acender meus pontos, como me ensinou a Maria Padilha.

Lentamente e com muita delicadeza fui montando mesmo um tipo de altar com toda a riqueza cultural e religiosa do Brasil e de um pedacinho do mundo, todos convivendo harmonicamente. (Talvez os objetos do meu quarto guardem esse desejo de harmonia entre as crenças).

Comecei colocando algumas pedras semipreciosas, uma pedra que havia ganhado de um babalaô no meu último jogo de búzios, meus patuás de Oxalá e Iansã que a Bruna Gurgel (Alma Perfumada) trouxe da Bahia (já adivinhando que eu era filho de Oyá), um copo com água e sal grosso. Às vezes, colocava um galho de arruda e deixava um incenso acesso.

No criado-mudo tinha uma caixa que comprei no centro histórico de São Luís e dentro dele tinham várias fitas do Nosso Senhor do Bonfim, trazidas também da Bahia, e alguns terços que me mandaram do interior. Na cabeceira da cama tinham dois Budas (um laranja e um azul). Indo para sua ponta, tinha um elefante indiano e um Omolú, que ganhei da Elaine Maria. Ah, tinha também um São Jorge vermelho que ganhei da minha mãe e uma Iemanjá, presente da Carolina Rodrigues.

Disso tudo sabe o que eu tinha comprado? A caixinha de São Luís. As demais coisas vieram se encostando na minha casa, entrando no meu quarto e sentando na minha cama, na cabeceira, para cuidar dos meus pensamentos.

Quem entra hoje no meu quarto vai ver tudo isso e mais um bocado de coisa. Só numa parede estão todos os orixás organizados por sua ordem de carrego e ao lado da minha escrivaninha verão um Preto Velho, Santa Bárbara, os patuás, várias fitas do Senhor do Bonfim, velas, incensos, incensários, guias, um japamala, presente da moça d’água, a Maria Gabriela, e um Buda.

Fui aprendendo a conviver com eles sem serem uma contradição para mim. Se as coisas ficam confusas eu jogo Tarot e pá: tudo resolvido! Confesso que é uma delícia ver tudo isso misturado num espaço tão pequeno.

O misticismo me ensinou exatamente esse exercício fundamental ao ser humano: a boa tolerância. Quanto mais lia sobre astrologia, candomblé, espiritismo, budismo e praticava yoga, via que todos eles se comunicavam perfeitamente, só eram vestes diferentes do mesmo elemento.

Talvez essa confusão toda me agrade porque meu meio do céu é em Gêmeos (e isso pode ser bom) e meu Netuno é em Peixes, ou seja, o planeta das religiões é regido pelo signo mais místico. Confusão armada: capacidade de ver diferentes pontos de vista e exageradamente simbólico. Ah, mas quem não é?

Ser místico é romper com as fronteiras da ciência, não se deixando compreender como coisa absurda, ou aceitar o rótulo de sobrenatural que as religiões o deram. Ser místico é ser lúdico, lúcido, já que se está mais atento ao tempo, e transcender ao asfalto e ao ferro  pela respiração.

Por isso é sempre delicioso misturar os elementos religiosos, místicos e simbólicos como bálsamos que aquietam a alma chorosa do mundo. Só não recomendo fundamentalismos e ser ateu com a religião alheia, experiência desse canceriano filho de Oxaguiã com Iansã e protegido pelo anjo Gabriel.

Carlos Mourão.

O toque nos tempos de capital

Sabemos que as revoluções liberais do século XVIII foram as responsáveis pela construção do indivíduo ocidental junto à quebra de um pensamento secularmente hegemônico. Inegavelmente, isso trouxe muitos avanços, especialmente jurídicos. Aquele que comete um crime não ter mais sua pena estendida Imagemà família é um exemplo. Mas até que ponto essa herança nos é favorável? É aquela linha tênue entre individualidade e individualismo em qual tentamos nos equilibrar para não despencar nem no abstracionismo e nem no egoísmo, embora para mim egoísmo já seja uma redundância de individualismo.

Reconhecer o outro indivíduo, que vai para além do nicho social do qual ele provém, é afirmar a universalização da dignidade da pessoa humana, mas o contrário é mais que necessário: reconhecer o indivíduo como produto de suas origens, seu meio, sua época. O primeiro reconhecer nos traz uma premissa muito importante: a inviolabilidade do corpo humano. Não preciso nem comentar o quanto as instituições sociais e políticas a violam diariamente.

Mas queria era jogar aqui na mesa a maior deturpação do conceito de inviolabilidade do corpo, que é a repulsa pelo contato físico despretensioso. O respeito ao my space dos americanos. Há uma regra social invisível, mas muito cumprida, que é a de não nos tocarmos, a não ser que nossas relações tenham um mínimo de definição. Será?

Quando a gente entra num ônibus, temos o cuidado de sentarmos primeiramente nas cadeiras vazias, afinal, temos de respeitar o espaço do outro e afirmar o nosso próprio. Apenas quando todas as cadeiras são preenchidas é que começamos a sentar nas cadeiras já ocupadas. O que me é estranho é que a mesma cerimônia não existe ao subir no ônibus. Como cearense tem uma incapacidade voraz para fazer/respeitar filas, o ato de subir num ônibus lembra uma cena de filme de fim dos tempos como mote, todos se esmurrando para salvarem suas vidas ao entrar no abrigo nuclear, ou sei lá o quê.

O que está de errado nesse quadro? Temos cuidado para não nos tocar por acidente, mas não temos a menor diligência para não nos empurrarmos, pisarmos no pé do outro, garantir que todos possam usufruir do transporte coletivo sem ter sua integridade física violada.

Para mim fica evidente quais os valores que as revoluções burguesas incorporaram a esse indivíduo por elas fecundado. E essa deve ser uma frente de luta daqueles que querem revolucionar o que aí está. Temos confundido respeito com frieza e violência como meio banal de afirmação do eu. Tenho extrema dificuldade em acreditar que uma maior distribuição de renda, uma reforma agrária, cotas universitárias raciais, elevado número de vagas em creches públicas de qualidade e casamento de casais homossexuais por si só são conquistas que vão alterar valores tão introjetados em nós.

Sei que tudo o que apontei acima são apenas reformas, mas é que realmente não consigo vislumbrar revoluções nesse quadro de distanciamento entre os indivíduos. E é só passar os olhos de novo pelas bandeiras de luta acima para relembrar o quanto, na maioria dos casos, estas são pautas isoladas e os movimentos, e a esquerda em geral, fazem questão de traçar seus próprios caminhos, fragmentando-se cada vez mais e sem a preocupação de se tocarem a não ser para embates mesquinhos.

O que eu realmente enxergo é que, enquanto não admitirmos que guardamos mais ideais burgueses do que gostaríamos, não teremos matéria para lidar com eles e o superarmos. Podemos colocar uma etiqueta de pós-modernidade nessa preocupação e continuarmos a ignorá-la, avançando em certos pontos e retrocedendo em outros. Ou podemos respirar fundo e nos abrirmos a essa violência psicológica e emocional que é reconhecer as próprias contradições e fazer o árduo trabalho de identificá-las diariamente e trabalha-las.

Nos encontros estudantis de esquerda, existe uma dinâmica que consiste em as pessoas formarem um círculo e beijarem uma parte do corpo, da pessoa ao seu lado, que ninguém na roda já tenha beijado. Se o número de pessoas for muito grande, a quantidade de espaços permitidos no corpo do outro vão se reduzindo. Quando você está ao lado de um completo desconhecido é uma experiência, no mínimo, interessante. É um carinho no corpo de alguém que não conheço. Por que isso é tão proibido, afinal?

Quer dizer, não vamos entrar em discussões morais, vamos? Nesses meus vinte e dois anos de existência na cidade de Fortaleza, eu não consigo pensar em muitos amigos e amigas que só tenham tido relações sexuais, ou mesmo beijado, pessoas que conheciam extremamente bem e nutriam grande atração intelectual/espiritual pelas mesmas. E você? Então, por que raios eu posso passar a mão na pélvis de um estranho, dar um empurrão num estranho e não posso lhe fazer um cafuné despretensioso?

Para mim, deveria ser um exercício constante de amor ao outro ser humano só porque ele tem um coração pulsando dentro dele e uma cabecinha cheia de sonhos e medos. Quem me conhece sabe que eu tô longe de nutrir esse amor e respeito por um estranho qualquer. Principalmente se esse estranho estiver usando uma camisa Aeropostale e escutando forró, sem fones de ouvido, no ônibus.

Mas vamos lá, eu reconhecer que isso é um preconceito e um baita de individualismo da minha parte já não é algo? É entender que a pessoa é mais do que uma cena que você guardou dela, mais do que uma palavra, uma ação. Eu não proponho que saiamos amando todas as pessoas que cruzarem nosso caminho em 5, 4, 3… a elas proponho respeito, principalmente se você for mulher, não aconselho grandes manifestações físicas com um cara estranho que não lhe interessa. Mas há as pessoas da nossa dinâmica diária, mesmo as que não são de esquerda, nem libertárias, proponho menos cerimônia ao toque despretensioso e mais amor fraterno por aqueles que nos circundam. Se a gente distribui mais amor, fica difícil uma única pessoa quebrar o nosso coração. O amor é a melhor arma de combate e defesa na dinâmica urbana. Tente ser amável com alguém que acabou de ser um tremendo idiota com você e depois me conta, tá?

Para finalizar, vai um poema do Leminski para adoçar essa manhã ingrata de segunda-feira e que tem tudo a ver com esse post. Buenas, camaradas!

En la lucha de classes
todas las armas son buenas
piedras, noches, poemas”

Leonísia F.

Por uma vida poética.

As vezes, no atual século, você tem tempo pra pensar e quando vê, formulou algo que faz sentido em qualquer era da raça humana. Bem, hoje foi um destes dias. Quem dera mais pessoas pudessem contrariar esses “novos tempos”; e retirar assim o atraso de nosso desenvolvimento para uma vida poética. E este verso, mesmo com uma imanência melancólica, é um avanço que precisamos compartilhar:

 

Nossa existência é uma bela poesia em decomposição.

Davi Q. M

Olhai os muros da cidade

 Alguém aí já tentou meditar? Gente, que coisinha difícil, viu!? Praticando meditação, descobri que não se trata apenas de procurar um local calmo e silencioso. Depois de alguns minutos meditando, você quase não nota mais os barulhos do ambiente. O mais difícil é silenciar a mente, a danada não cala nunca! Quanta barulheira, quantas vozes que se entrecortam. Lembrei de quando eu era adolescente e fui dormir na casa de uma amiga que morava perto do aeroporto e ao lado de um bar, três horas da manhã pareciam três da tarde.

Conversando com meu professor de Yoga, ele me aconselhou que não é questão de silenciar a mente, mas de tomar consciência de cada manifestação de pensamento e colocá-lo no seu devido lugar com a sua devida emoção. Isso facilitou muito e tem trazido muita paz. Paz! Esse é outro termo, ou prática, que a Yoga me fez repensar. Confesso que dou um pouco de descrédito quando alguns grupos espirituais utilizam esse termo de uma forma tão desconexa da minha realidade.

Mas li alguns conceitos de que a paz, para a Yoga, não se assemelha a um estado de inércia e mero conformismo, tampouco é algo que se alcança isolando-se do ambiente e das mazelas do mundo. Não se trata de anestesiar o corpo ou a mente, mas de uma agitação e busca radical por verdade e justiça. A paz é prática e é vibrante. O que está imóvel ou intacto pode, no máximo, ser uma tola busca pelo estado de paz. Não sair da própria zona de conforto está longe de ser paz.

Contemplar é palavra de ordem na Yoga. É muito fácil sentir boas energias contemplando uma cachoeira, o oceano, o mirante de uma serra ou o céu no entardecer. Mas e quanto à nossa cidade? Às suas ruas e os seus muros? O que eles nos revelam? Agonia, stress, impureza? A arquitetura de uma cidade nos revela o senso de estética dos que nela habitam, ou pelo menos de uma camada bem definida dos que nela habitam. Sendo objetiva, quem produz a cidade é quem de recursos dispõe para tanto.

Que bonito seria se todos os muros da nossa cidade se prolongassem no tempo limpos e bem cuidados, da forma como foram construídos, não é? Talvez nossos olhos festejassem mais ao contemplar a cidade. Entretanto, alguns indivíduos vêm na calada da noite e imprimem suas assinaturas ou recados para amantes, amigos e inimigos no muro que a família da esquina acabou de pintar! Que sacanagem, né? E quando picham o patrimônio público? Universidades, Prefeituras, escolas, hospitais, igrejas… O que será que esses indivíduos querem nos dizer?

Pichar constitui crime com pena de detenção e multa. Com décadas de luta, o grafite vem sendo cada vez mais reconhecido como forma de arte, mas desde que em locais bem definidos da cidade. Fortaleza está repleta deles, principalmente na Avenida da Universidade, no bairro Benfica. Lembro de todo ano alterarem o grafite do muro da Reitoria, mas o que está hoje já dura um bom tempo e é, sem dúvidas, o meu preferido. Estampado está um pedaço da história política do Brasil que desemboca questões até hoje e não pode nunca ser esquecido. Depois de algum tempo, nesse mesmo muro, também se imprimiram outras mensagens: cotas para negrxs, creche universitária, liberdade de amor entre o mesmo sexo, etc. Mais sujeitos querem ter suas mensagens propagadas.

A arte do grafite é política e não somente pela mensagem que expõe, o próprio modo de expor essa mensagem é político. Os demais habitantes vêm dizer que não está tudo em paz em só aqueles que possuem dinheiro poderem expressar seu senso de estética na cidade. E é por isso que não devemos fazer concessões morais apenas para o grafiteiro contratado para deixar certos muros mais coloridos. Sem desmerecer a arte dos grafiteiros, a qual eu aprecio e divulgo, não podemos ignorar e rotular de vandalismo o que as pichações querem revelar.

O imperador Shah Jahan mandou construir o Taj Mahal para declarar publicamente o seu amor à esposa Aryumand. Bush filho divulgou aos quatros cantos do universo que Osama Bin Laden era seu inimigo número um, digo, inimigo dos EUA. Como eles fizeram isso? E o resto de nós, pobres mortais? Como expressamos nosso amor, nosso ódio? Se o Fulano de Tal expressou seu amor pela namorada no muro novo da família da esquina como posso eu, da janela da minha casinha, interpretar tal fato? Devo me conformar em só os que têm poder de voz conseguirem expressar em larga escala suas emoções, suas crenças, seu discurso político?

A cidade é um organismo todo integrado. É como o nosso corpo. Sabe quando você esbarra sua perna na quina da mesinha de centro e fica um roxo na sua canela por dias? Você não vai deixar de andar, claro, mas o roxo tá lá denunciando que, afinal, houve uma pancada e doeu pra caramba, e ainda dói. O roxo deixa sua pele feia, mas a culpa é do roxo ou da pancada na quina da mesa? Aliás,  que culpa tem a canela se quem se desequilibrou foi o pé?

Sem fazer apologia a qualquer tipo de pichação, e as entendendo bem diferentes dos grafites, os quais são arte por excelência, tendo a interpretá-las como sintomáticas do modo como o nosso organismo urbano vem se construindo. Sendo um todo integrado, problemas que surgem acolá, vêm se reverberar bem ali na minha esquina. E quanto mais teimarmos em não vermos que tudo é uno e interligado, mais problemas surgirão e menos soluções teremos.

Deixo aqui a minha mensagem: olhai os muros da cidades e os interpretai. E, se buscas paz, não foges da agitação e da inquietação do processo.

Para ver mais muros além dos do seu dia a dia indico o twitter @olheosmuros e o tumblr  http://olheosmuros.tumblr.com. Você também pode contribuir com a equipe tirando fotos de muros e enviando para o e-mail deles.

Leonísia F.

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